A cultura pedagógica em primeiro lugar

João Alegria
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A educação sempre esteve próxima da tecnologia. Principalmente das tecnologias da comunicação e da informação. E desde o final do século XIX, quando as tecnologias de reprodução da imagem proliferaram com a fotografia, o cinema e a impressão de jornais e revistas ilustradas, não se pode mais falar em educar sem o uso de tecnologias.

João Alegria escreve sobre tecnologia e educação
“A educação sempre esteve próxima da tecnologia”

Nos vários momentos diferentes dessa trajetória em comum, os educadores olharam para as tecnologias de diferentes modos. Muitas vezes a tecnologia foi tratada como uma experiência encantadora, permitindo aos estudantes e aos educadores deslocar-se para mundos distantes ou para dentro do corpo humano através de imagens, por exemplo. Foi também entendida como uma ameaça, que traz às crianças e aos jovens informações que eles ainda não estão preparados para receber, antecipando ou desviando-os de um processo educacional organizado e pensado para as diferentes idades. Aparece também a tecnologia como um projeto educacional completo e detalhado, onde se tenta manejar a introdução de diferentes recursos tecnológicos num programa educacional completo.

Uma das formas mais recorrentes de as tecnologias serem relacionadas com a educação é quando elas passam a ser entendidas como um atalho, para se atingir mais rápido os objetivos do processo educacional, sem esperar o tempo necessário ou fazer os investimentos para que haja um sistema educacional de qualidade.

Durante todo o século XX as tecnologias foram apresentadas aos gestores da educação pública assim, como uma possibilidade de atalho. É o que acontece nesse fragmento curioso de uma reportagem da Revista Cinearte (n. 345, pag. 3), de 1932, quando a nação se debruçava sobre a difícil tarefa de levar escola aos brasileiros dos quatro cantos do país, com seu território desafiador e ainda pouco habitado e sem infraestrutura de comunicação, estradas e outros meios de acesso:

“Nós, especialmente aqui no Brasil, terras vastíssimas de populações escassas, podemos afirmar, com segurança, que os verdadeiros desbravadores do nosso sertão foram o automóvel e o filme. Foram estes dois aparelhos civilizadores que tiraram a maior parte das teias de aranha que obscureciam os cérebros de nossos patrícios do interior. Os hábitos de higiene, as noções de conforto, os ensinamentos práticos das coisas mais comezinhas, foi com o filme que as auriram as populações do nosso hinterland. Sem o filme existiriam o carro de boi, o carretão, a zorra, a cama forrada de couro cru de boi espichado, o mocho de três pés ou o grosseiro banco sem encosto como assento, a comida jogada sobre a mesa para a bruteza do engorgitamento animal às refeições, as mulheres retidas em gineceus, os Lampiões, os Antônio Conselheiros, as Santas Dicas, questões forenses liquidadas a faca, as de família a bala, o cangaço, o fanatismo, o atraso e o primitivismo ainda hoje.”

O trecho é rico para demonstrar como a tecnologia aparece associada à ideia de progresso, modernidade, transformação — que sua capacidade de influenciar e modelar os hábitos daqueles aos quais atinge é inquestionável. Nesse caso, que a simples exposição das pessoas aos filmes, mesmo quando eles não fossem filmes educativos ou preparados para educar, seria suficiente para que chegassem muito mais rápido e de forma mais eficaz à condição de pessoas educadas. Nesse e em outros períodos de nossa história existem exemplos similares, como foi o caso do “computador de 100 dólares”, para lembrar um caso recente.

Essa crença tem contribuído para que gestores da educação pública se decidam por investimentos com o objetivo de dotar os sistemas escolares de tecnologias de informação e comunicação com a compra de televisores, computadores, projetores multimídia; como se a simples presença dos aparatos tecnológicos nas escolas fosse produzir resultados transformadores imediatos.

O uso de aparatos tecnológicos e tecnologias contemporâneas é obrigatório para a educação atual, mas sem dedicar tempo e recursos à formação dos profissionais da educação e à transformação da cultura pedagógica predominante, os aparelhos não chegarão a produzir resultado algum. Inclusive é possível se perguntar sobre a real necessidade de investir na compra de equipamentos numa sociedade de altíssima densidade tecnológica como aquela em que vivemos (todos já trazem muita tecnologia consigo, nos bolsos e nas bolsas).

Anote aí: em primeiro lugar o ser humano. Os estudantes, professores, responsáveis e gestores escolares. Depois as máquinas, e apenas quantas e quais forem necessárias para dar vida ao projeto pedagógico definido pela comunidade escolar.

João Alegria

João Alegria

João Alegria é diretor do Canal Futura e professor do Departamento de Artes e Design da PUC-Rio. Dedica-se a projetos e consultoria em educação, tecnologias contemporâneas e a experiência de ensinar e aprender.

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