A TV na sala de aula

João Alegria
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Quase todas as escolas brasileiras já tiveram um televisor dentre seus recursos pedagógicos. Há décadas, em diferentes programas de investimento, fazendo ou não parte de uma estratégia maior de presença do audiovisual na educação, as escolas vêm recebendo esses aparelhos, ou até mesmo os adquirindo, elas próprias.

Controle Remoto: A TV na Educação

Os televisores nas escolas brasileiras protagonizam uma das cenas mais tristes de incorporação das tecnologias de comunicação na educação, que é fato de os aparelhos estarem trancafiados em pequenas jaulas – diz-se que para sua própria proteção, já que há um enorme número de furtos de equipamentos em escolas. Geralmente instalados num lugar alto que quase inacessível, numa sala especial, de difícil acesso para professores e alunos, trancados em suas pequenas jaulas, jazem os televisores sem nenhum uso pedagógico.

Em alguma condição extraordinária ou data especial, os alunos costumam ser conduzidos para a “sala de vídeo” para assistirem a um filme ou vídeo, nem sempre articulado com as intenções curriculares das disciplinas. Serve de entretenimento num dia de ausência de um professor. Para ilustrar uma passagem específica da História universal, como a Idade Média, num uso pouco correto do recurso audiovisual. Ou seja, aquilo que representava uma promessa de renovação pedagógica nos anos 1970 e 80, principalmente com a chegada do videotape e dos equipamentos portáteis de gravação e reprodução de vídeos, como o VHS, acabou se tornando um aparato tecnológico sem vínculo com a atividade fim da escola, muitas vezes apenas utilizado para o entretenimento dos alunos.

O televisor continua sendo um equipamento poderoso para o uso pedagógico. Ele evoluiu com o passar do tempo, incorporou novas tecnologias e se popularizou. Atualmente as smartvs (televisores inteligentes), podem navegar na internet, fazer chamadas à distância com o uso de voz e imagem, conectar-se a diferentes consoles de jogos e equipamentos de vídeo e fotografia, oferecendo muitos recursos à educação.

O audiovisual também continua importante. Há uma centralidade do audiovisual na cultura contemporânea, e os processos de gravação e edição de vídeos foi facilitado por uma série de novos dispositivos, como os aparelhos celulares. Tudo isso justifica um resgate da importância e de uso do televisor na educação de crianças e adolescentes.

Já se imaginou participando de uma conversa à distância com um escritor conhecido para conversar sobre o livro que a turma acabou de ler? Ou então indo para a sala de aula sem a necessidade de levar materiais, podendo acessá-los remotamente através do televisor conectado alí disponível? Então, isso é possível e de baixo custo, bastando que a escola, os professores e os alunos sejam preparados adequadamente para esse uso.

Os autores e pesquisadores do uso da comunicação na educação, como Pier Cesare Rivoltella, indicam três dimensões para a apropriação do audiovisual e de seus dispositivos tecnológicos nas práticas educacionais. A dimensão crítica, a dimensão técnica e a dimensão expressiva.

A dimensão crítica tem a ver com conhecer e formar repertório audiovisual. Baseia-se no fato que quanto mais conhecemos a produção audiovisual, na sua diversidade de formatos, conteúdos e gêneros, mais nos preparamos para dialogar de forma autônoma com o próprio audiovisual. A dimensão técnica refere-se concretamente a construir domínio técnico sobre a operação dos aparatos tecnológicos que envolvem o audiovisual, como televisores, câmeras, computadores com softwares de edição. Esse domínio técnico viabiliza o acesso às produções e também à possibilidade de fazer. Por fim a dimensão expressiva indica a fluência, o letramento, nas linguagens do audiovisual, dando aos professores e alunos possibilidade de se expressar também nessa linguagem.

Tudo pode vir ao mesmo tempo, pois não há um ordenamento na relação entre essas três dimensões. Tudo depende de cada contexto e da vontade dos envolvidos nas decisões. Um projeto pedagógico pode escolher trabalhar apenas com a formação de repertório. Um outro pode centrar-se na produção. O importante é pensar que essas três dimensões devem, em algum momento, serem contempladas, por serem complementares entre si. O mais importante é não desistir do televisor e do audiovisual, recursos poderosos e ainda pouco explorados na educação.

João Alegria

João Alegria

Diretor do Canal Futura e professor do Departamento de Artes e Design da PUC-Rio. Dedica-se a projetos e consultoria em educação, tecnologias contemporâneas e a experiência de ensinar e aprender

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