Desafios da Educação Superior a Distância no Brasil - Inoveduc

Desafios da Educação Superior a Distância no Brasil

Carlos Eduardo Bielschowsky
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O Brasil tem uma larga tradição em educação a distância (EaD), já tendo ocupado posição de destaque internacional em algumas áreas, como na utilização intensiva de ensino pela TV com o “Telecurso  2º grau”, “Projeto Minerva”,  “Salto para o Futuro” e tantos  outros programas. Essa tradição estendia-se a outras mídias, tais como os cursos técnicos pautados em mídia impressa com mediação por correspondência.

E continuamos muito ativos nesses tempos digitais. Segundo o Censo EaD 2015/2016 da Associação Brasileira de Educação a Distância (Abed), a EaD movimenta, no mínimo, 5.048.912 de alunos nas mais variadas áreas de conhecimento, níveis acadêmicos e tipos de cursos. No ensino superior, são mais de 1,4 milhão de alunos nas Instituições de Ensino Superior (IES) públicas e privadas e mais de 130 mil na educação básica de jovens e adultos. O programa Nacional e-Tec Brasil (MEC) conta hoje com dezenas de milhares de alunos em cursos técnicos de nível médio e um número ainda maior de estudantes frequenta os cursos técnicos do sistema S e demais cursos de instituições privadas. Sem contar com os milhões de alunos que fazem formação continuada nas Universidades corporativas, bem como as incontáveis matrículas dos alunos nos Moocs (Massive Open Courses) oferecidos no Brasil e no exterior.

No ensino superior, a modalidade a distância foi inaugurada por dois marcos principais: o curso de formação de professores em exercício da Universidade Federal do Mato Grosso, em 1994, e o primeiro vestibular aberto, que foi oferecido pela Universidade Federal Fluminense no contexto do consórcio Cederj, em 1999. Naquele momento, a educação a distância já estava consolidada há décadas em inúmeros países, com milhões de alunos matriculados.

Começamos tarde, mas avançamos rapidamente. Hoje, cerca de 18% do total de matrículas no ensino superior é na modalidade EaD. A figura abaixo mostra a impressionante evolução do número de alunos de graduação no sistema público e privado desde então.

Número de alunos de EaD no Ensino Superior no Brasil.

 

Estar em constante sintonia com os avanços no processo de ensino e aprendizagem

É impressionante a velocidade dos avanços tecnológicos e metodológicos destes nossos tempos. Quem poderia imaginar, há 20 anos, que seria possível utilizar, maciçamente, recursos de microcomputadores ligados à internet na educação superior no Brasil? Atualmente, é impensável não utilizá-los. Há pouco mais de 5 anos, ainda era difícil imaginar uma utilização intensa de dispositivos móveis, sendo eles hoje essenciais.

Já começa a ser inviável não fazer uso das redes sociais como ferramenta no processo de ensino e aprendizagem, não utilizar a prospecção de dados (por exemplo, com o learning annalytics) na personalização de trajetórias de aprendizagem dos alunos, ou ainda, não utilizar Moocs* para vencer algumas tarefas específicas da missão institucional.

O desenho instrucional de um sistema de educação superior a distância é altamente personalizado, depende do perfil dos alunos e dos cursos oferecidos e precisa considerar os recursos disponíveis, de forma integrada, para facilitar o processo de ensino e aprendizagem de seu público-alvo. E, como o conjunto de elementos instrucionais muda rapidamente, é necessário rever constantemente as estratégias de produção de novos conteúdos e refazer as estratégias das disciplinas já ativas.

No caso do Cederj, nosso laboratório de mudanças são as novas disciplinas. Hoje, planejamos cada semana da construção do conhecimento do aluno em uma determinada disciplina, concatenando o conteúdo programado no material impresso e em outras mídias com atividades de mediação presencial nos polos e de mediação à distância na plataforma e do processo de avaliação de aprendizagem, processo que denominamos de desenho instrucional integrado.

Nada trivial é rever periodicamente as práticas pedagógicas das disciplinas que já são oferecidas nas 15 diferentes carreiras, somando, no momento, mais de 700, sendo que parte delas foi construída há mais de dez anos e, por isso, foi planejada sem elementos tecnológicos hoje imprescindíveis. O estudante estava, e em certos casos, sujeito a duas experiências de aprendizagem distintas: aquela presente na sala de aula virtual e a do material didático impresso somado à tutoria presencial. Boa parte de nosso esforço instrucional, hoje, é ocupado na revisão da docência dessas disciplinas.

Menciono o exemplo do consórcio Cederj, cujos alunos têm alcançado excelentes resultados no Enade (Exame Nacional de Desempenho de Estudantes), pois, em princípio, poderíamos continuar como estamos, mas sabemos que se não nos atualizarmos, teremos uma evasão maior e os estudantes não poderão desfrutar das melhorias didáticas proporcionadas pelos novos recursos tecnológicos e metodológicos que surgiram nos últimos anos.


Qualidade na oferta de cursos na EaD

Esta é uma temática da maior importância, que sofre de uma contradição intrínseca: uma maior regulação, com o estabelecimento de regras rígidas vinculadas à metodologia de docência na educação a distância pode resultar em um menor aproveitamento da aplicação das mudanças tecnológicas em curso e, por consequência, ocasionar a redução da qualidade na oferta.

E por que ainda necessitamos de uma regulação com instrumentos detalhados se isso pode resultar em perda de qualidade? A resposta parece simples: algumas instituições tendem a oferecer práticas educacionais em EaD de baixa qualidade, com o agravante de que podem alcançar rapidamente centenas de milhares de alunos.

E por que o fazem? Mediação (tutoria presencial e a distância) custa caro, assim como bons polos de atendimento presencial. Ter materiais instrucionais de qualidade também está longe de ser uma pechincha. Além disso, oferecer um curso com um bom conteúdo e correspondentes critérios de avaliação resulta em maior evasão e consequente perda de receita. Em resumo, é muito lucrativo oferecer um curso com conteúdos e avaliações superficiais, com pouca mediação e tecnologia educacional frágil.

Como estabelecer uma régua de qualidade aceitável para essas questões?

Apesar de contarmos com um sistema regulatório de excelência, tendo como principais atores o INEP, o Conselho Nacional de Educação e a Seres (MEC), pautados em larga regulação a respeito (portarias, instrumentos de avaliação, etc.), ainda não atingimos um equilíbrio nessa questão. Trata-se de um assunto muito complexo, até porque público-alvo, objetivos e carreiras são distintos em um país de dimensões continentais como o Brasil. Pecamos, em meu entendimento, em utilizar pouco o instrumento de supervisão já amplamente usado em passado recente, que, bem aplicado, permite maior liberdade no processo regulatório.

O problema do financiamento e institucionalização da oferta das instituições públicas

O equilíbrio entre a oferta de ensino superior público e privado é fundamental por diferentes motivos, entre eles, o fato de as universidades públicas serem responsáveis pela maior parte da pesquisa científica do país, que já ocupa a 13ª posição no mundo. Além disso, por força de sua missão, a esfera pública fará sempre um desenho instrucional e ofertas de cursos mais voltados para a difícil questão de vencer as nossas brechas sociais.


Sem dúvida, as universidades públicas federais e estaduais, bem como os Institutos Federais de Educação, são atores importantes na construção de uma educação superior a distância de qualidade, ajudando a criar um ambiente de credibilidade da EaD como um todo.


Enquanto a oferta do sistema privado é financiada pelas mensalidades dos alunos, no setor público, o sistema é financiado principalmente pelo governo federal, com honrosas exceções que têm financiamento misto (federal e estadual), como ocorre nos estados de São Paulo (Univesp) e Rio de Janeiro (Consórcio Cederj).

O principal financiamento público é realizado pela Universidade Aberta do Brasil, criada em 2005, e instituído pelo Decreto 5.800 de 8 de junho de 2006, na extinta Secretaria de Educação a Distância do MEC, indo, posteriormente, para a diretoria de educação a distância da Capes/MEC. Trata-se de um programa vitorioso que alavancou a educação a distância nas universidades públicas, envolvendo, hoje, 106 IES (Universidades Federais, Universidades Estaduais e Institutos Federais de Educação), que compartilham  597 polos de apoio presencial em todo o Brasil.


Como qualquer programa em construção, o ensino a distância no Brasil precisa ser periodicamente revisto. Neste momento, defendo que se dê ênfase à institucionalização da EaD nas IES que participam da UAB, contemplando os seguintes aspectos principais:

  1. Uma maior estabilidade de financiamento, que permita o ingresso de alunos em fluxo equivalente ao dos cursos presenciais. Esse tem sido um fator determinante no decréscimo recente de alunos da UAB.  
  2. A distribuição do trabalho dos docentes entre as atividades de ensino presencial e a distância dentro da carga regulamentar de docência da matriz dos diferentes departamentos das IES.
  3. Uma maior integração entre os processos de ensino e aprendizagem do ensino presencial e da educação a distância.
  4. Uma maior inserção dos alunos da educação à distância nas atividades de pesquisa e extensão, como ocorre com os alunos dos cursos presenciais.


Trata-se de grandes desafios, mas que se fazem pequenos diante de todo o potencial de inclusão social através do ensino superior que a Universidade Aberta do Brasil vem realizando em todo o país.

Como conclusão, expresso minha convicção na revolução positiva que a Educação Superior a Distância vem realizando no Brasil. Refiro-me não apenas à inclusão no ensino superior de estudantes que, em concomitância, trabalham, moram em localidades anteriormente não atendidas por universidades ou apresentam quaisquer outras características específicas dos perfis de brasileiros, mas também a todo o potencial de transformação do processo de ensino e aprendizagem que vem sendo introduzido na metodologia de ensino em nossas universidades.

Carlos Eduardo Bielschowsky

Carlos Eduardo Bielschowsky

Professor Associado do Instituto de Química da Universidade Federal do Rio de Janeiro, pesquisador na área de Físico-Química Quântica. Presidente do Consórcio Cederj e da Fundação Cecierj, tendo sido responsável pela construção do projeto do consórcio Cederj e por sua implementação. Ex-Secretário Nacional de Educação a Distância do MEC no período 2007-2010, ficando à frente da implementação da Universidade Aberta do Brasil, do programa e-Tec Brasil, do programa Nacional de Formação de Professores (plataforma Paulo Freire) e do programa ProInfo Integrado.

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