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Inovar a Educar é Preciso

Antonio Moreira Teixeira
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A Emergência de Uma Nova Cultura de Educação Aberta, Flexível, Escalável e Personalizável

Numa interessante reflexão, a propósito da obra do empresário Alencar Burti, Ricardo Viveiros propõe a seguinte máxima: “Inovar é preciso; educar também”. [Viveiros (2016), Empreender é viver: a trajetória de Alencar Burti, São Paulo: Editora Gente]. A ideia subjacente é a da importância do investimento na educação para conseguir qualificar a economia brasileira, dado o efeito promotor que esta tem na geração da inovação e do empreendedorismo. Todavia, uma análise mais profunda do problema permite concluir que para a máxima ser verdadeira, ela também deve ser lida no sentido inverso, ou seja, da necessidade do investimento na própria inovação da educação.

Na verdade, vivemos hoje um momento de transição no domínio educativo. Como lembra o académico inglês Alan Tait, numa feliz expressão, a paisagem está a mudar no campo da educação. Tal transformação resulta da necessidade de responder aos novos e complexos desafios da nossa sociedade. Assim, nos últimos anos, temos vindo a assistir à expansão vertiginosa de práticas educativas inovadoras enriquecidas pela tecnologia e também de formas virtuais de ensino e aprendizagem. Este fenómeno tem muitas e variadas causas. Desde logo, a globalização económica e a consequente necessidade de internacionalização da oferta educativa. Mas, também o impacto impacto social e cultural da assimilação das novas tecnologias, em particular dos dispositivos móveis e das redes sociais, que contribuiram para a construção de uma sociedade em rede, para o qual nos alertou o grande sociólogo espanhol Manuel Castells.

O processo de reorganização em rede da nossa sociedade tem criado a necessidade de adoção de novas formas de aprendizagem não só mais flexíveis, do ponto de vista espacial e temporal, mas também mais abertas e personalizáveis, colaborativas e escaláveis. Exige-se que os novos formatos e modelos de aprendizagem sejam adaptáveis a situações e contextos diferenciados, desmaterializados, mais eficientes e sustentáveis. Para os novos estudantes, ou aprendentes, da geração do milénio, é fundamental que cada um possa escolher por si próprio, e de acordo com a sua circunstância e interesse, o local, o momento, a forma e o ritmo como aprende. Para além disso, deve poder alterar o seu percurso de aprendizagem no decurso do mesmo e optar pelo modo como essa aprendizagem é avaliada e até certificada.

Nesse sentido, os próprios conceitos de educação a distância, de educação aberta e de eLearning têm vindo a transformar-se igualmente, abrindo lugar a novos formatos mais compatíveis com o paradigma da educação em rede. Este é o caso, particularmente, da educação aberta. O sucesso extraordinário do fenómeno dos cursos online abertos e massivos (Massive Open Online Courses – MOOC) veio comprovar, com uma revigorada força, a importância da inovação em rede das práticas educativas.

Em apenas seis anos, o fenómeno tornou-se viral. Segundo dados recolhidos pela Class Central, o número de utilizadores registados neste tipo de oferta ultrapassou já os 35 milhões em 2015, tendo quase duplicado o valor do ano anterior. Mais de 600 universidades em todo o mundo oferecem presentemente cerca de 6.000 cursos abertos e online. Estes dados identificam uma evolução extraordinária, uma vez que, em 2011, apenas estavam registados 160.00 usuários.

O sucesso sustentado destas práticas tem conduzido instituições e decisores políticos a olhar para a aprendizagem aberta como especialmente adequada não apenas à promoção da inclusão social, mas também à inovação pedagógica e à internacionalização da oferta educativa.

Este novo cenário pujante da inovação educativa baseada tecnologia veio modificar definitivamente a visão tradicional da escola e da universidade. A centralidade da sala de aula e do próprio professor no processo educativo foi substituída por uma nova realiadade fragmentada em milhões de ambientes personalizados de aprendizagem, cada qual centrado num estudante específico.

Naturalmente, este fenómeno não deixa de encontrar resistências e críticas. A dificuldade maior resulta da confluência no nosso percurso de aprendizagem ao longo da vida de vários tipos distintos de aprendizagem. Por exemplo, qualquer um de nós pode frequentar um curso aberto e livre, adquirindo no final um certificado. Essa certificação comprova uma determinada experiência de aprendizagem e tem valor como tal. Mas, não é um diploma académico formal. Neste sentido, é clara a distinção. Todavia, cada vez mais se dá um aproximação entre contextos formais, informais e não fomais de aprendizagem. Assim, por exemplo, a frequência de MOOCs constitui já hoje parte das atividades curriculares de muitos cursos universitáriso formais. Tanto pode ser utilizado como um recurso de aprendizagem, no âmbito de uma exeriência de sala de aula invertida, como constitir uma parte do programa de uma unidade curricular ou de um seminário, e até mesmo substituir uma unidade inteira. Neste contexto, a mistura entre os contextos diferenciados de aprendizagem (formal, informal e não formal) coloca hoje um conjunto de problemas novos e complexos.

Todavia, os novos cenários de aprendizagem de natureza impõem novos valores e uma nova cultura educativa. Com efeito, a aplicação de conceitos tradicionais na avaliação de experiências inovadoras pode ser inapropriada. A título de exemplo, a crítica mais comum que se coloca aos MOOCs relaciona-se com as baixas taxas de conclusão dos seus particpantes. Este juízo, porém, deriva de uma perceção incorreta, porque baseada num cultura de aprendizagem diferente da verificada num MOOC. Num curso online aberto, muitos dos participantes têm experiências de aprendizagem bem sucedidas sem realmente concluírem o curso ou realizarem qualquer avaliação, o que se prende com a granularidade diferenciada destes programas e a diferente motivação de quem os frequenta.

À medida que a aprendizagem se torna mais personalizada e flexível, a oferta formativa tem também de se diferenciar, exigindo, consequentemente, uma nova cultura institucional, com novos valores. No atual contexto globalizado, o desafio da aprendizagem passa, pois, necessariamente pela sua sustentabilidade em larga escala, pela sua escalabilidade e pelo potencial de partilha de conhecimentos e experiências.

Na verdade, a ideia que nos deve nortear no campo da educação no contexto presente não é já a da acumulação e transmissão do conhecimento, mas a da capacidade de o mobilizar para a mudança, ou seja de o tornar um conhecimento transformador, o qual conduza à mudança social positiva.

Neste sentido, a questão que se coloca aos educadores não pode ser apenas de como educar para a inovação, de como transmitir um conjunto de conhecimentos e experiências, mas de como poderemos construir em colaboração com os estudantes uma experiência de conhecimento que os autonomize, enquanto agentes de mudança.

É neste contexto que se coloca necessariamente a questão da inovação na educação, em particular a que se prende com a utilização da tecnologia. Com a difusão de um conjunto de inovações pedagógicas, que vão desde os cursos abertos aos ambientes virtuais imersivos, dos elementos de gamificação à renovada importância dos instrumentos de descrição analítica da aprendizagem, uma nova geração de universidades e escolas, organizadas como ambientes de aprendizagem híbridos, abertos e flexíveis, está a emergir.

Naturalmente, estes novos ambientes implicam alterações nas infraestruturas das instituições educativas, como mais e melhores computadores disponíveis para estudantes e professores, redes informáticas reforçadas, espaços letivos preparados para a utilização das tecnologias. De igual modo, é importante reforçar a quantidade e qualidade dos conteúdos digitais disponíveis na rede, preparar os professores para a compreensão e utilização da tecnologia em contexto de inovaçao pedagógica, e assegurar bons níveis de literacia digital dos estudantes. Todavia, não basta apenas este investimento. Importa também introduzir uma cultura generalizada de partilha de conhecimento e colaboração, um atitude aberta, de espírito crítico e sentido de inovação.

É um facto que nas últimas décadas, um pouco por todo o mundo, muitas têm sido as iniciativas e o investimento público na inovação tecnológica do ensino. Como é conhecido, nem sempre esse esforço tem conduzido a resultados positivos ou animadores. Muitas dessas iniciativas obedeceram apenas a critérios de oportunidade política ou tendências internacionais. Como aponta o relatório “Students, Computers and Learning: Making The Connection”, da OCDE (2015), a utilização intensiva da tecnologia não melhora por si só os resultados de aprendizagem. É a sua utilização enquadrada em estratégias pedagógicas devidamente desenhadas e validadas que permite alcançar esse objetivo. A chave é, pois, a inovação pedagógica.

Inovar a educar é preciso, cada vez mais! Como lembrava Andreas Schleicher, os sistemas escolares necessitam de encontrar formas mais eficientes de integrar a tecnologia no ensino e na aprendizagem, de modo a cumprir as promessas do novo milénio. Esta é uma responsabilidade coletiva das comunidades educativas e da soiciedade em geral.

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Universidade Aberta

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