Pais digitais, filhos analógicos: os limites do uso do celular

Marcio Gonçalves
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Você lembra de quando chegava um professor novo na escola? Mas é de quando você tinha lá seus 5, 6 para 7 anos? Eu não me lembro não. Mas agora sei bem o que é isso porque, neste caso, eu sou o tal professor e vivi, recentemente, um bombardeio de perguntas da galerinha dessa idade.

Primeiro porque eu era novo na escola. Depois é porque eu sou o professor de cultura digital. Juntando tudo isso, respondi qual era minha idade, onde eu morava, se eu falava Inglês, se eu já tinha morado nos Estados Unidos etc.

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Passada toda essa curiosidade, em uma das turmas veio o apelido de Tio Barata. É porque na imaginação infantil tudo pode. Criança é roteirista nata. Ela observa tudo ao seu redor. Ela é do tipo que desafia o colega, que corre no pátio, que rala o joelho e ganha um recadinho da professora na agenda se fez coisa boa ou ruim.

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Quando falo de crianças de 2 a 7 anos, por exemplo, é o mundo analógico que faz mais sentido para ela. Todo esse atrativo digital, como smartphones e redes sociais, pertence ao mundo dos adultos. É novidade, e muito atraente por sinal, ter aulas de tecnologias da informação e comunicação usando o próprio computador.

A importância do letramento digital

Mas para muitos desses pequenos a atividade digital termina quando eu saio de sala. Para essa turma, a brincadeira ainda é muito valorizada. A força física está em pleno desenvolvimento. Correr, pular e tropeçar é substitui navegar, surfar e interagir na web.

Em HD Sem Filtro, que é uma websérie que produzo, no terceiro episódio eu já havia tido essa impressão.

 

Há uma geração de mães digitais que proíbe o filho de usar smartphone. Em contrapartida, os pais devem usar o celular com tanta frequência que ouvi de uma aluna:

— Meu pai fica o tempo todo na internet.

E essa colocação veio seguida de uma carinha triste e desolada. Nessas horas, só me veio à cabeça a campanha Conecte-se ao que importa.

Depois da colocação da aluna concluí que a introdução ao mundo digital para essa turminha é extremamente importante. Mas o uso apropriado dela é a criança que vai aprender para ensinar aos pais. Estou chamando isso de letramento digital.

Nas escolas, o item 6 da Base Nacional Comum Curricular, diz que em Cultura Digital deve-se ensinar os estudantes a utilizarem Tecnologias de Informação e Comunicação de forma crítica, significativa, reflexiva e ética para comunicarem-se, acessarem e disseminarem informações produzindo conhecimentos e resolvendo problemas.

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É importante perceber, portanto, que a atenção da criança não pode ser substituída pelos pais digitais que passam o tempo todo no celular. Nessa fase, a criança prefere o mundo analógico ao digital. Os pequeninos não devem precisar de senha para ter acesso ao carinho dos pais.

Marcio Gonçalves

Marcio Gonçalves

Doutor em Ciência da Informação, professor universitário e autor do projeto “Aula Sem Paredes”

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