Metodologias Ativas – Parte 1: Aprendizagem Baseada em Projetos

Thiago Almeida
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Atualmente, 48 instituições de ensino superior no Brasil estão se organizando para adotar, formalmente, as metodologias ativas de aprendizagem como modelo pedagógico. Elas fazem parte do Consórcio STHEM Brasil, uma iniciativa da Semesp e da Laspau, ONG que difunde o conceito da aprendizagem ativa na América Latina.

No entanto, há centenas de outras instituições que também estão procurando adotar metodologias ativas, mas ainda não participam do consórcio.

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Assim como há escolas de ensino básico realizando o mesmo movimento, universidades corporativas e empresas de cursos livres.

O interesse pelo tema é grande, e publicações importantes estão chegando nas livrarias, como a obra “Metodologias Ativas Para Uma Educação Inovadora”, de Lilian Bacich e José Moran, e “Revolucionando a Sala de Aula”, de Edvalda Araújo Leal, Gilberto José Miranda e Silvia Pereira de Castro Casa Nova.

Apesar do aumento da procura sobre o tema das Metodologias Ativas, trata-se de uma discussão que vem acontecendo há quase 30 anos. Em 1991, o professor C. Roland Christensen, da Universidade de Harvard, liderou a publicação do livro “Education for Judgment”, no qual, em conjunto com outros pesquisadores, aborda com profundidade os desafios de se adotar a aprendizagem ativa como abordagem pedagógica.

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Como pesquisador e professor, tenho estudado metodologias ativas de forma sistemática e estruturada, e venho adotando-as em minhas disciplinas desde 2013, em cursos de graduação e pós-graduação nas áreas de Design, Cinema, Publicidade de Propaganda, Administração e em programas para formação de professores.

Sempre que compartilho minhas experiências, noto um grande interesse por parte de professores e gestores educacionais em relação ao tema, e muitas dúvidas comuns acabam vindo à tona. Desta forma, preparei uma série de três artigos para o Portal InovEduc onde abordarei três técnicas de metodologias ativas com as quais tenho mais experiência e leituras:

  • Aprendizagem Baseada em Projetos
  • Aprendizagem Baseada em Equipes
  • Método do Caso

O objetivo é compartilhar experiências, percepções e discutir brevemente a fundamentação teórica de cada técnica.

Aprendizagem Baseada em Projetos

O que é?

É uma metodologia ativa orientada para o desenvolvimento de habilidades, conhecimentos e atitudes nos estudantes, por meio de intenso processo de investigação e elaboração de produtos e artefatos.

De acordo com o Book Institute For Education (2008), os projetos podem variar de uma semana até um ano, envolvendo apenas uma disciplina ou tendo caráter interdisciplinar, integrando diferentes professores, séries, comunidade e adultos fora da escola.

Aprender através de um projeto é diferente de realizar um projeto.

Normalmente uma pessoa é convidada a realizar um projeto quando possuí competências para tal, adquiridas previamente, e que serão utilizadas no decorrer do processo. No caso da aprendizagem por projetos, o objetivo é inverso. O estudante não possui as competências necessárias para realizar o projeto, e precisará, justamente, desenvolvê-las durante o processo, para que seja capaz de entregar o produto ou artefato demandado pelo professor.

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Portanto, o projeto se transforma em um recurso de aprendizagem, onde o objetivo não é a entrega do produto ou artefato, mas sim o processo de aquisição de conhecimentos, habilidades e atitudes necessários para se chegar no resultado final.

A metodologia de projetos inverte a lógica do modelo instrucional, onde o ponto de partida é o currículo e o planejamento do professor. Na aprendizagem por projetos, o ponto de partida é o interesse do estudante, e, a partir dele, o professor fará o currículo surgir durante o processo.

Em outras palavras, se os estudantes precisam aprender multiplicação e divisão, na matemática, isto acontecerá não porque o professor decidiu em seu planejamento, mas sim porque, em uma das etapas de projeto será necessário multiplicar e dividir para que o produto ou artefato seja criado.

Neste caso, se o projeto for, por exemplo, a realização de uma feira de comidas orgânicas, para determinar as porções e quantidades de alimentos a serem comprados e preparados, é preciso saber multiplicar e dividir, e os estudantes deverão aprender estas operações não pela determinação do professor, mas sim para a realização o projeto, o que confere sentido à aprendizagem.

Como se aplica?

O projeto deve ser elaborado previamente pelos professores, como se fosse uma espécie de roteiro da experiência de aprendizagem que os alunos enfrentarão. Deve partir de uma questão norteadora, relevante para a vida dos estudantes, e que seja capaz de despertar interesse e motivação.

Os estudantes deverão ser guiados pelos professores durante um intenso processo de pesquisa. O papel do docente deixa de ser narrar conteúdos ou explicar teorias, e passa a ser o de planejar situações de aprendizagem relevantes, mediar conflitos e impasses dentro da equipe, sugerir caminhos de pesquisa e questionar permanentemente os estudantes.

Quando falamos em aprendizagem por projetos, esta palavra é muito importante: experiência. O planejamento do projeto, por parte dos professores, deve sempre ter em foco qual o tipo de experiência que desejam proporcionar a seus estudantes.

Em tese, os professores devem determinar o nível de dificuldade e flexibilidade que o projeto deverá ter para os alunos. É importante haver espaço para os estudantes customizarem suas pesquisas e resultados finais, mas sem que isso represente um desvio de rota em relação aos objetivos de aprendizagem.

Como se avalia?

A aprendizagem por projetos pode ser avaliada de duas formas:

  1. durante o processo, em um modelo formativo, em que o professor avalia os estudantes através de suas interações com as equipes
  2.  e ao final, através do produto ou artefato gerado pelo projeto. O ideal é que ambas as dimensões sejam contempladas. É importante frisar que o professor deve ter em mente as competências que os estudantes precisam desenvolver, e deve colocar seu foco de avaliação nelas.

Um projeto é uma metodologia rica, que normalmente oferece aprendizados não planejados pelo professor e conduz as equipes a experiências não previstas. Isto é muito importante para uma experiência proveitosa de aprendizagem por projetos, porém os professores devem sempre ter muita clareza de quais objetivos de aprendizagem estão em jogo e do que precisa ser avaliado primordialmente.

O que não é aprendizagem por projetos?

Aprendizagem baseada em projetos não é:

  • Trabalho em grupo
  • Avaliação
  • Dinâmica de grupos

É normal professores confundirem a aprendizagem baseada em projetos com atividades que envolvam cooperação ou aplicação de conteúdos ministrados previamente. Nem todo trabalho em equipe ou grupo significa aprendizagem por projetos. A principal diferença da aprendizagem por projetos para um trabalho em grupo tradicional é: em um trabalho em grupo os estudantes aplicam conhecimentos que foram previamente trabalhados em sala de aula, ou realizam uma pesquisa solicitada pelo professor.

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Na aprendizagem por projetos os estudantes vivenciam uma experiência diferente, pois partem de um desafio ou problema apresentado pelo professor, e precisam construir um produto ou artefato que responda a este problema. A confusão costuma acontecer pelo fato de a aprendizagem por projetos envolver pesquisas e investigações.

No entanto, o projeto não se concluí com a descoberta de informações, mas sim com a criação de produtos e artefatos a partir dos dados pesquisados. Os estudantes precisam efetivamente pesquisar e criar algo ao final do processo.

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Alguns professores utilizam a aprendizagem por projetos como instrumento de avaliação, por entenderem que no projeto, conhecimentos previamente trabalhados podem ser aplicados. No entanto, isto é uma forma inadequada de utilizar a metodologia, pois o objetivo é que o aluno aprenda durante o desenvolvimento do projeto, ou seja, ele precisa ser exposto a novos aprendizados. Utilizar o projeto como recurso de avaliação não leva a novos aprendizados, e funciona mais como exercício ou reforço.

A aprendizagem por projetos exercita níveis mais altos da Taxonomia de Bloom, como avaliação e criação, permitindo aos estudantes praticar estes domínios cognitivos. É justamente por isso que deve ser aplicada num contexto de desafio. Ser utilizada como avaliação ou exercício em equipe não estimula a criação, mas apenas a reprodução de algo previamente aprendido.

Fatores críticos de sucesso

A literatura relata que a aprendizagem baseada em projetos provoca níveis mais altos de engajamento dos estudantes, pois normalmente estes enxergam significado nos temas de projeto. Para que isto aconteça, é recomendável que os projetos sejam baseados em assuntos do dia a dia ou de grande interesse dos estudantes.

Outro ponto importante é o estímulo à colaboração. Projetos envolvem decisões e conflitos em equipe, e a busca pelo consenso e construção coletiva é um fator de envolvimento dos alunos no processo. É também relevante que o desenvolvimento do produto ou artefato envolva tanto habilidades que os estudantes já possuem, quanto a aquisição de novas. Aprender dentro do grupo é outra característica importante da metodologia.

Minha experiência com Aprendizagem Baseada em Projetos e recomendações gerais

Os resultados mais interessantes que observei em meus estudantes na aplicação da aprendizagem por projetos, em termos de engajamento e aprendizado, sempre foram relacionados a dois fatores: autonomia e desafio. Oferecer aos estudantes a possibilidade de escolherem seus temas de projeto sempre trouxe resultados mais efetivos em termos de envolvimento. Deixá-los mudar de tema também é algo importante, pois ratifica que está nas mãos da equipe decidir os rumos do trabalho.

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Construir espaços de autonomia é crucial, de forma a permitir que os estudantes realmente se apropriem do processo e se guiem pelos seus interesses. No entanto, autonomia é prima-irmã da curiosidade, e uma não sobrevive sem a outra.

A primeira tarefa de um professor é ajudar os estudantes a desenvolverem curiosidade sobre os temas, principalmente se o projeto for uma metodologia com a qual não estejam acostumados. É preciso um período de adaptação ao ritmo das atividades do projeto. Somente quando a curiosidade verdadeiramente se manifestar é que os estudantes se sentirão donos do processo e passarão a se orgulhar de seu trabalho.

É justamente neste momento que o desafio surge como elemento crucial. Sem desafio o interesse pelo projeto tende a esfriar, e a entrega do produto ou artefato pode se tornar óbvia e entediante. O desafio é o que irá sustentar o engajamento dos estudantes durante o projeto, e não deve ser excessivamente alto, de forma a fazer os alunos desistirem, nem muito fácil, de forma torná-lo desinteressante. Os alunos precisam se orgulhar dos resultados ao final.

No próximo artigo nosso tema será Aprendizagem Baseada em Equipes. Até lá!

 

Se você tiver interesse em se aprofundar na aprendizagem por projetos ou quiser tirar dúvidas e pedir dicas, escreva para mim: [email protected]
Thiago Almeida

Thiago Almeida

Idealizador da Escola HUB. Doutor pelo Instituto COPPEAD/UFRJ, é pesquisador membro da International Society of the Learning Sciences (ISLS), com foco de pesquisa nos temas Inteligência Artificial na Aprendizagem, Empreendedorismo Educacional e Gestão da Inovação na Educação.

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