João Alegria fala sobre o filme Nunca me sonharam, que debate educação

Nunca me sonharam

João Alegria
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Há poucos dias vivi, pela segunda vez, a experiência de estar diante do coletivo que protagoniza o debate sobre educação e escola no filme documentário “Nunca me sonharam”.

A maior parte daqueles quase 80 jovens — me perdi tentando contar a lista de nomes nos créditos finais — frequentam escolas diferentes, vivem em cidades distantes umas das outras, espalhadas por sete estados brasileiros; porém agora se reúnem na forma de um coletivo virtual, em sessões de cinema, para ocupar a tela grande quando as luzes se apagam e dialogar com o público da sala escura sobre como pensar uma educação que faça sentido para os jovens e as juventudes brasileiras.

Eles têm pressa, vontade, são inteligentes, rápidos, articulados e não têm papas na língua para dar seu recado: está quase tudo errado na escola que restou para eles.

Como é sabido, por algum tipo de lógica perversa que se estabeleceu no sistema educacional brasileiro, o esforço para oferecer acesso à escola não foi acompanhado de garantias de qualidade na educação

A qualidade da educação não acompanhou a expansão do número de vagas nos sistemas educacionais. Nem os governos de exceção da ditadura civil militar pós-64, nem os governos que se seguiram à redemocratização, foram capazes de corrigir esse desvio.

João Alegria, do Futura, fala sobre o filme Nunca me sonharam
João Alegria, diretor do canal Futura

O resultado, fica cada vez mais evidente pelas pesquisas atuais, é um sistema educacional que reproduz as desigualdades sociais, com raras exceções, oferecendo a pior escola aos mais pobres. É o que confirma o estudo As desigualdades na educação no Brasil: o que apontam os diretores das escolas, divulgado recentemente pela Fundação Lemann.

Isso vale para o ensino público e também para o ensino privado, apesar da imagem de senso comum que afirma “o público é ruim e o privado é bom”. Também não vale apelar para aquele erro histórico do “antigamente a escola era boa, depois ficou ruim”. “Antigamente” a escola era para poucos, pouquíssimos, por isso também produtora de desigualdade.

No filme “Nunca me sonharam”, especialistas, educadores e principalmente os jovens, aprofundam uma reflexão sobre a educação que buscam, expondo as tensões que se estabelecem entre uma escola hierarquizada, conteudista e linear que já não consegue estabelecer contato com as novas gerações.

O filme Nunca me sonharam, dirigido por Cacau Rhoden e produzido pela Maria Farinha Filmes, é uma iniciativa do Instituto Unibanco. Esta disponível gratuitamente através da plataforma Videocamp, que pode ser utilizada para promover uma exibição do filme na sua escola, ou onde for mais adequado. O importante é não deixar de conversar com os jovens sobre a educação que está sendo ofertada a eles.

* Este é o artigo de estreia de João Alegria no InovEduc. A coluna será publicada semanalmente no portal.

João Alegria

João Alegria

João Alegria é diretor do Canal Futura e professor do Departamento de Artes e Design da PUC-Rio. Dedica-se a projetos e consultoria em educação, tecnologias contemporâneas e a experiência de ensinar e aprender.

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