O sedentarismo emocional e social

Betina von Staa
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No último artigo desta série, discutimos como o nosso conceito de inovação na educação está relacionado à imagem de pessoas olhando telas, ao invés de pessoas olhando pessoas. Saiu na BBC uma reportagem sobre uma pesquisa realizada por Jean Twenge, professora de psicologia da Universidade Estadual de San Diego, que descreve a “geração smartphone” como uma turma que passa aproximadamente seis horas por dia diante de telas, e encontra-se com os amigos menos do que gostaria.

Segundo a sua pesquisa, fazem menos sexo e bebem menos do que gerações anteriores e, em geral, entre eles, o maior tempo diante de telas está relacionado a mais infelicidade.

Crianças jogando bola

Essa pesquisa confirma que nosso novo estilo de vida parece estar gerando um novo sedentarismo: o de interações humanas. Se o sedentarismo convencional nos trazia males para o corpo, como obesidade, hipertensão, diabetes, entre outros, o sedentarismo de interações humanas traz consequências emocionais e sociais. Como afirma a pesquisa, os jovens demonstram mais infelicidade e desejam mais contato humano do que efetivamente têm.

Isso significa que devemos banir a tecnologia de nossos lares e salas de aula? Certamente não. Também não banimos os carros, as escadas rolantes e os elevadores de nossas vidas quando descobrimos os males do sedentarismo. No entanto, com o tempo, também descobrimos que, se uma pessoa se movimentar apenas 3 vezes por semana por meia hora e tiver uma alimentação saudável, ela já não sofre tanto dos danos da falta total de movimento.

Em breve, teremos estudos que revelarão como podemos fazer frente ao sedentarismo emocional e social: “Devemos passar tanto tempo por dia, tantas vezes por semana sem olhar para telas e participar de interações humanas nutritivas.” (A fórmula ainda está por ser descoberta! Vamos aguardar os próximos capítulos dessa história).

. Em outro artigo para o InovEduc, a autora fala sobre a reconquista da interação social.

O que seriam interações humanas nutritivas?

Por incrível que pareça, está cada vez mais claro que elas são conversas espontâneas com amigos, comer à mesa com a família, conversas no cafezinho da empresa, discussões aprofundadas entre pessoas com opiniões diferentes, ficar consigo mesmo em silêncio sem fazer nada (opa, essa é para os avançados!) –  sem celular à mão. Como também se sabe que ler livros ativa as mesmas partes do nosso cérebro que ter experiências reais, a leitura em profundidade, por um longo período de tempo, também conta como interação nutritiva.

Por outro lado, são interações pouco nutritivas, que somente demandam atenção do nosso cérebro sem alimentá-lo: reagir a cada bip do seu celular, construir sua compreensão de mundo a partir de comentários nas redes sociais sem ler eventuais fontes que gerem as opiniões, tais como notícias, reportagens, estudos, fotos, filmes, etc, preferir e-mail e WhatsApp a uma conversa oral em tempo real (mesmo que seja por telefone ou vídeo), clicar em links aleatoriamente, ou seja: deixar-se levar pelos estímulos da tecnologia sem controle de onde se quer chegar.

A diferença entre as interações mais nutritivas e menos nutritivas é que as nutritivas exigem reflexão, contato emocional, capacidade de reagir a diferentes estímulos verbais, expressões faciais, tons de voz, sabores, sons e texturas em tempo real.  Ao interagir ao vivo com estímulos sensórios, percebemos melhor quem somos nós, quem é o outro, desenvolvemos empatia e superamos mal-entendidos. Sendo assim, nos tornamos emocionalmente mais completos e mais hábeis socialmente.

Sabendo disso, como podemos tirar o máximo proveito de todos os recursos tecnológicos que estão trazendo inovação para a educação sem gerar sedentarismo emocional e social? Cada vez mais, será necessário incluir conscientemente os momentos de interação nutritiva no processo educacional, presencial ou a distância. Isso pode significar, simplesmente, garantir momentos de interação social durante o período letivo, criar espaços de convivência convidativos para os alunos – e oferecer esses espaços para os alunos de cursos a distância os usarem quando quiserem fazer um trabalho de grupo ou jogar conversa fora (afinal, esse tipo de conversa é nutritivo!). Pode significar ter momentos sagrados para não usar o celular em aula, como nas refeições em casa.

Também é importante incluir rotineiramente momentos de reflexão e discussões complexas quando se opta pela aula invertida, ou pela aprendizagem adaptativa. Valorizar a leitura de textos longos como literatura ou reportagens é outra estratégia que não pode ser esquecida, mesmo que a leitura de fragmentos e sínteses pareça ser mais prática para uma obtenção de informação imediata.

O que não podemos é cair na tentação de achar que a preferência pela interação por meio de telas é uma característica de uma geração, ou que eles vão saber lidar com isso melhor do que as gerações anteriores. Não vão. Já estão demonstrando infelicidade. Nós, educadores, precisamos ajudar nossos alunos a encontrar o equilíbrio entre o desenvolvimento pessoal e o uso de tecnologia. Se ainda não sabemos fazer isso, é porque estamos diante de um problema novo.  Afinal, quando passamos a andar de carro e ficar mais preguiçosos dentro de casa, também precisamos de um tempo histórico para entender as consequências do sedentarismo.

Vamos conversar com nossos alunos e identificar como podemos ajudá-los a, simplesmente, serem mais felizes!

Para saber mais, leia:
CARR, Nicholas. The Shallows: What the Internet is doing to our brains. W.W. Norton & Company, Nova York, 2010.
TURKLE, Sherry. Reclaiming Conversation: The Power of Talk in the Digital Age. Nova York, Penguin Books, 2015.

Betina von Staa

Betina von Staa

Coordenadora do CensoEAD.BR, da Abed e designer Pedagógica na TransFor.Me

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