Profissões da era do sedentarismo emocional

Betina von Staa
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Vamos nos imaginar em um futuro não muito remoto, digamos, daqui a 10 ou 20 anos: teremos enfermeiros-robôs que dão o remédio certo na dose certa na hora certa para o paciente, os diagnósticos médicos serão fornecidos por computadores super-inteligentes que não falham (!), nossas casas serão todas inteligentes e abrirão a porta somente para seus donos por reconhecimento de íris, entregarão a comida que cada um prefere no prato na temperatura ideal e ainda farão a lista de compras que será enviada automaticamente ao mercado, que fará as entregas por drone e a cobrança virtualmente com dinheiro virtual. Nem preciso dizer que as moradias serão auto-limpantes! Ninguém mais vai precisar dirigir, porque os carros serão autônomos. Com o módulo de leitura de pensamento, levarão você aonde quiser, sem que seja necessário comando de voz ou digitação. Aliás, essa história de digitar, provavelmente será coisa do passado muito em breve!

. O sedentarismo emocional e social

E as escolas? Provavelmente não existirão, pois a aprendizagem (do quê, mesmo?) ocorrerá por meio de transmissão de conteúdos personalizados, talvez até por meio de chips implantados para ninguém ficar para trás. Os locais de trabalho? Devem acabar, pois tudo (!) poderá ser resolvido a distância, e as pessoas trabalharão de casa. E onde morarão as pessoas? Em cidades? Retornarão ao campo? Começou a ficar difícil prever.

Muitos empregos e funções certamente desaparecerão com as novíssimas tecnologias renovadas cada vez mais rápido: ministrador-de-remédio, fazedor-de-diagnóstico, abridor-de-porta, limpador-de-casa, fazedor-de-compras e atendente-de-fazedor-de-compras, digitador-de-GPS, dirigidor-de-carro, despejador-de-conteúdo-em-cabeça-de-criancinha e muitas outras, com certeza, serão extintas. O que vai sobrar para a humanidade fazer? Temos que pensar um pouco mais longe (ou mais perto) para entender.

Profissões do futuro

O óbvio é que todos esses robôs-computadores-dispositivos precisarão ser inventados e programados por algum humano com o apoio de alguns robôs. Os equipamentos também terão de ser controlados e receber manutenção e alguém vai ter que saber o que fazer quando o computador-dador-de-diagnóstico se deparar com um algoritmo que não corresponde às necessidades do seu paciente e… errar(!). Os superdispositivos também terão de ser suplantados pela próxima geração tecnológica, o que renovará o ciclo de invenção-programação-manutenção-obsolescência.

Ou seja, quem quiser garantir algum emprego neste futuro próximo, faz bem em apostar em desenvolver conhecimentos e habilidades que envolvem tecnologia e inovação.

No entanto, há outros empregos do futuro que tendemos a esquecer quando pensamos em… futuro. As crianças e os idosos estarão corretamente alimentados e medicados, mas vão ter vontade de conversar, de se exercitar e de brincar.  Talvez eles sofram de males que não são tratados exatamente com remédios na dose certa. As pessoas poderão se locomover para onde quiserem, mas vão precisar de um motivo para isso. As moradias, em que passaremos boa parte do tempo, trabalhando ou simplesmente vivendo e convivendo, provavelmente serão minúsculas nas grandes cidades e maiores no campo. E as pessoas provavelmente desejarão que sejam aconchegantes, bonitas e versáteis. Sem perder tanto tempo no trânsito e em trabalhos enfadonhos, talvez as pessoas lembrem de querer comer bem. Ou de brigar – com a família, o vizinho, os membros da rede social, adversários políticos.

Profissões do futuroE quando o trabalho estiver feito, ou as pessoas estiverem simplesmente desocupadas, a família ou os membros do co-living estiverem reunidos, vai dar vontade de interagir com uma história, possivelmente por meio de letras ou som ou vídeo – ou ouvir música, assistir a um jogaço de futebol, ou sair para dançar. Ou, quem sabe, buscar saber o que anda acontecendo na sua cidade e em outros cantos do mundo. E os jovens terão de aprender muito, sim, mas alguém vai ter que lhes mostrar por quê e, de vez em quando, tirar uma dúvida ou ajudar a persistir.

E talvez eles achem curioso, de vez em quando, se encontrar com exemplares semelhantes da sua espécie. Sendo assim, o futuro nos apresenta várias profissões que serão essenciais para garantir a felicidade humana: jogador-de-conversa-fora, brincador, promotor-de-exercícios-físicos, promotor-de-saúde-das-pessoas, inventor-de-jardins, decorador-especializado-em-texturas-e-cores, criador-e-cuidador-de-jardins, fazedor-de-comida-boa, apartador-de-briga, contador-de-histórias, filmador-de-histórias, escritor-de-histórias, fazedor-de-música (versão composição e execução), jogadorzaço-de-futebol, contador-de-fatos(verdadeiros)-dos-cotidianos-do-mundo, criador-de-lugar-para-se-divertir e, claro, explicador-de-motivo-para-aprender, tirador-de-dúvidas e monitor-da-persistência, além de promotor-de-encontros-entre-semelhantes.

Por fim, uma profissão muito requisitada talvez será monitor-de-sedentarismo-emocional-e-social para lidar com todas as questões decorrentes da falta de contato humano no cotidiano. E, para tudo isso, será necessário ir a algum lugar para encontrar alguém. Ufa – os carros autônomos encontraram serventia. Será que muitas destas profissões do futuro não são as que chamamos de “artista” ou “profissional-com-habilidades-interpessoais”?

Ou seja, o futuro das profissões não está mais nos rótulos de médico, advogado, engenheiro, professor. Ele reside em formas de exercer qualquer profissão que exige criatividade, inovação e atendimento às nossas necessidades e desejos mais genuinamente humanos. Estamos formando nossos alunos para este mundo? Não deveríamos esperar o tempo dizer.

Betina von Staa

Betina von Staa

Coordenadora do CensoEAD.BR, da Abed e designer Pedagógica na TransFor.Me

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