Qual deve ser a Estratégia Educacional na Era Digital?

Stavros Xanthopoylos
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Vivemos um momento ímpar no Mundo de hoje, passando por uma fase de transição com o alto impacto da tecnologia na vida do indivíduo no âmbito pessoal, profissional e educacional. Vimos a possibilidade plena de interação do usuário com a internet e suas aplicações, com a introdução das ferramentas da Web 2.0, e a sociedade em rede tomar corpo por meio das redes sociais mediadas por computadores e nossos dispositivos smart, como descreveu Tapscott. Intensificamos nossas relações entre indivíduos, grupos ou instituições com interesses convergentes e as relações de muitos com muitos. Essa nova globalização caracteriza uma quebra de barreiras mais profunda que o movimento da globalização mercantilista que vivemos a partir da década de 80 do século XX, pois gera um ambiente de pontos, ou hubs, potencialmente conectáveis conforme interesses das partes em gerar essas relações, transcendendo qualquer limite. Pois, essa nova configuração de conectividade e interação cria uma nova dimensão de comunicação através de um ciberespaço de integração que nos une virtualmente nessa realidade.

Os movimentos de Recursos Educacionais Abertos (REA), iniciados pelo MIT quando lançou o OCWC (Open Courseware Consortium), em 1999, hoje OEC, abrindo a totalidade de mais de 1000 de seus conteúdos a quem quisesse acessar, e a introdução de MOOC’s (Cursos Massivos Online Abertos), lançados neste formato em 2011, oferecidos gratuitamente e oriundos das maiores e melhores universidades do mundo trazem um novo panorama no oceano que banha a educação superior em todos os níveis, pois a maior parte do conteúdo comum está disponível na internet, hoje.  Por outro lado, temos o fenômeno da integração quase que inerente à genética dos indivíduos nascidos sob a regência dessas tecnologias, denominados “nativos” digitais, em dicotomia com a geração dos “imigrantes” digitais, trazendo os desafios de preparar os ambientes educacionais para gerarmos cidadãos digitais, entendendo-se aqui que esse esforço deve permitir que todas as gerações possam ser efetivas como cidadãos e profissionais nessa nova era global da economia do conhecimento.

A dinâmica de relacionamento entre as partes nos modelos tradicionais e formais de ensino e aprendizagem preveem alunos, professores, conteúdo e processos de avaliação/certificação, próprios, enquanto esse novo cenário permite o cruzamento de qualquer um destes entes ou elementos, compondo o novo mercado potencial. Além disso, é previsto pela Unesco para 2030 que teremos mais de 400 milhões de alunos potenciais para o ensino superior, além do desafio premente de capacitar os imigrantes digitais para as novas condições de vida e do mercado com maiores demandas profissionalizantes. O formato taylorista da educação está com sua validade vencida e não apto a atender as novas demandas e muitas universidades e instituições de ensino irão desaparecer se não adequarem o seu modelo. Atualmente, o único país que estabeleceu e está desdobrando de forma efetiva uma política governamental nesta direção é a Coreia do Sul.

As argumentações introdutórias acima nos levam a muitas reflexões e trazem um grau de complexidade enorme na definição das estratégias educacionais futuras, pois como dizia a letra de um dos hinos do rock mundial, Another Brick in the Wall, do Pink Floyd, que critica os sistemas de educação e a postura do professor como sendo “simplesmente mais um tijolo na parede”, pode estar com seus dias contados, ou seja a Síndrome do Tijolo na Parede, definição própria, será por livre arbítrio da instituição, do professor ou do estudante, inclusive, pois a escolha de ser tijolo, parede ou construtor da obra prima será de cada um, independente do seu papel no processo da aprendizagem.

Algumas das principais premissas, mencionadas acima, desse novo cenário vislumbram vertentes que devem ser consideradas para estabelecimento da estratégia nessa nova era da Educação no ambiente digital. As tecnologias de integração permitem que se estabeleça uma distinção entre educação premium ou de acesso, caracterizando estratégias de nicho com impacto significativo nos aspectos relacionados à eficácia operacional dos processos educacionais, com impacto direto na sustentabilidade do negócio.

Outra variável fundamental está associada a forma de cobrar a oferta, cujo formato pode ser pago, grátis ou “freemium”, deguste parte e pague o que achar conveniente. Modelos de ofertas abertas em toda e qualquer instituição intensificam-se a cada dia, onde os componentes “aberto e gratuito” não são mais exclusivas das Universidades Públicas ou Abertas. Necessariamente a componente aberta terá que estar presente nas ofertas permitindo acesso e vantagens como, a disponibilidade e visibilidade do conteúdo, prestar um serviço à sociedade e a possibilidade da melhoria e complementação do conteúdo e a cobrança para o aprofundamento da aprendizagem ou a certificação, por exemplo, como é feito hoje em muitas empresas de MOOC’s.

A decisão sobre o escopo de atuação, local ou global, também é importante e estrutural na estratégia da instituição. Pois, a mobilidade da população traz amplas oportunidades de ofertar cursos em todos os níveis nesse escopo. A estrutura será integrada por rede própria ou com parcerias? Essa questão é fundamental para um mundo cada vez mais conectado.

À medida que as redes informais de conhecimento e aprendizagem expandem, a necessidade de certificação migra de um mercado de certificações formais para reconhecimentos entre pares ou inferências de conquista ou aquisição de habilidades ou competências, como é o caso dos “badges” quando não há necessidade de certificação formal. Porém, os indivíduos que optarem por auto estudo e consequente desejo de certificação formal poderão busca-la em instituições que irão especializar-se como certificadoras ou em aquelas que optarem por também ofertar certificação de aprendizagem.

As novas cadeias de valor do mercado educacional trarão novos entrantes, também, principalmente as empresas de comunicação e editoras que possuem acervo enorme de conteúdos com alta qualidade e em diversas mídias, alguns grupos internacionais já caminhando nesta direção, Além de novos elos  de fornecedores de serviços, em todas as áreas, destacando-se as áreas de informática e comunicação, as TIC’s, para apoiar o mercado tanto na cadeia de suprimento dos processos de entrega quanto nas atividades internas do negócio, Assim, a configuração da estrutura passará necessariamente por decisões estratégicas de o que fazer versus o que adquirir ou construir em parcerias.

As principais variáveis para definição da estratégia estrutural foram apresentadas acima. Como fica o método ou o modelo pedagógico? Bem, no que se refere ao método de ensino, Comenius, onde estiver, estará contente, pois sua frase, em sua obra “Didactica Magna”, de 1638, que dizia, “era necessário desenvolver um método de ensino em que os professores lecionem menos para que os alunos possam aprender mais”, finalmente deverá se fortalecer nas estratégias de ensino como premissa atual. Hoje, diferentemente de meados da década de 90, quando somente alunos que estudavam na modalidade a distância faziam uso das ferramentas de comunicação, interação, compartilhamento, disseminação e construção coletiva do conhecimento, todos somos alunos, ditos a distância, a qualquer tempo, em qualquer lugar, bastando termos acesso à internet. Ou seja, estamos na era da educação digital, onde não há distancia ou limitação física para acesso a informação ou ao conhecimento.

As definições das estratégias pedagógicas deverão levar em conta o continuum que percorre do ensino presencial puro até o e-learning puro, passando pelas estratégias de ensino presencial apoiado por tecnologia, híbrido ou blended, em suas diversas formas, e o e-learning ou online tutorado e temperar as ofertas de conteúdos com mais ou menos atividades presenciais. Destaca-se que as metodologias híbridas irão prevalecer gerando momentos de antecipação de conteúdo e atividades para preparação e posterior encontros presenciais ou em tempo real para aprofundamento, complementação, prática ou avaliação da aprendizagem.

O estudante ou aprendiz assumi um papel mais proativo neste novo cenário e visa resultado imediato na aplicação daquilo que aprende. Assim, as metodologias ativas e multidisciplinares de ensino aproximando o máximo daquilo que esteja sendo estudado com a realidade ou aplicação na vida real ou profissional do estudante devem ser adotadas. Sala de aula invertida, Project Based Learning, Problem Based Learning, Aprendizagem Adaptativa, entre outras, compõe métodos ativos de aprendizagem, por exemplo, introduzidos em muitos ambientes atualmente que estão revolucionando o ensino. O aluno mais ativo, a facilidade de acesso à informação, a integração e visão sistêmica aplicada ao processo de aprendizagem aceleram o processo de formação do indivíduo, assim há uma tendência de redução dos tempos de duração dos cursos.

A definição do modelo pedagógico e dos métodos de ensino deverá equilibrar os objetivos de aprendizagem, a característica do curso, o público alvo com os recursos investidos nas tecnologias educacionais e de gestão que apoiaram na efetividade da aprendizagem e a sustentabilidade do processo, tanto para garantir o melhor custo ou investimento num negócio ou o uso adequado do dinheiro público.

O desafio maior é preparar o professor, ou será que existe professor neste novo mundo? Professor não é profissão, mas vocação, portanto o papel do professor assume novos elementos antes não integrados em suas funções. Além de buscar maximizar o seu conhecimento em torno de sua disciplina, ele orquestrará, muito provavelmente com um ou mais colegas, um processo de motivar e inspirar seus estudantes para busca do aprendizado, orientará caminhos e busca de conteúdo às necessidades de cada um, com qualidade adequada, e assim passa a ser um curador da infinidade de informação disponível hoje pela internet. A instituição para desdobrar a sua estratégia deverá necessariamente preparar seu corpo docente para este novo cenário no qual as habilidades no uso das tecnologias, comunicação, construção do pensamento crítico e capacidade de pesquisa do indivíduo, alinhados aos valores institucionais e o seu posicionamento, serão pontos chaves para atrair alunos e ser competitivo e sustentável no mercado.

Por fim, muitos dizem que chegamos ao fim das universidades como as conhecemos, será? Até aqui mostramos algumas dimensões da estratégia educacional focada no processo de aprendizagem focando a premência de dar-se resposta a um mundo que necessita de processo continuo de educação continuada seja para formação ou complementação do indivíduo. Porém, o mundo vai continuar sedento por criação de novos conhecimentos, descobertas, inovações. Algumas destas conquistas do futuro trarão o nome de conceituadas instituições de hoje que como “hubs” do conhecimento irão se preparar para gerar os cidadãos do mundo digitalmente integrado, irão constituir ou participar de redes de aprendizagem, informais e formais na formação de redes de conhecimento, que alavancadas transformam-se em redes de pesquisa consolidando a criação e gestão do conhecimento.

Existe um céu azul no horizonte deste oceano com poucas nuvens para os navegadores que se prepararem para esta jornada rumo à Educação do Século XXI, ou a Universidade do Século XXI, para os outros a tempestade e tormenta serão devastadores, percebem?

Stavros Xanthopoylos

Stavros Xanthopoylos

Educador, Fundador e Diretor da SPX Consultoria, Diretor Internacional da ABED

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