Quem é o Professor da Educação 3.0?

Luciana Allan
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A palavra escola tem origem no grego ‘scholé’, que significa, curiosamente, ‘lugar do ócio’. Fundadas por filósofos, na Grécia as escolas eram espaços para ocupar o tempo livre e refletir, normalmente enfatizando uma área específica de conhecimento. Os alunos estudavam informalmente, sem que fossem separados por séries e em salas de aula, e as disciplinas eram ensinadas por um modelo pedagógico de questionamentos.

Foi somente no século XII que surgiram as escolas como conhecemos hoje, com crianças enfileiradas e professores como os únicos detentores do conhecimento. Centenas de anos depois, no século XIX, passaram a dividir as aulas em disciplinas básicas, como ciências, matemática, história e geografia.

E nunca mais mudaram. Até hoje o aluno exerce um papel coadjuvante no processo de aprendizado. O professor define o que deve ensinar, quando, como, onde (normalmente na secular sala de aula com lousa e carteiras), mas muitas vezes sem saber o porquê e para quê.

Mas para ser um professor na emergente Educação 3.0, o professor precisa virar a mesa (ou a carteira, no caso).

O latim professore quer dizer pessoa que professa, que declara, que manifesta algum saber. Já aluno tem procedência no verbo latino alere, referente a alimentar, nutrir, sustentar; ele é um ‘afilhado’ do professor.

Com a incessante adoção nas escolas de arsenais tecnológicos que vêm rapidamente transmutando modelos pedagógicos seculares, vestir a beca de professor se tornou tão desafiador para os que resistem às inevitáveis mudanças quanto empolgante para os defensores da urgência de levar a educação ao encontro das demandas do Século XXI.

O próprio significado da palavra professor já não faz completo sentido, cabendo melhor, acredito, a designação educador, com origem no latim educator – quem alimenta, orienta, prepara, e que também carrega na sua formação o verbo ducare, cujo significado é ‘conduzir para fora’.

É o fim da sala de aula engessada em tijolos e argamassa.

Na medida em que surgem novas arquiteturas na construção de salas de aula, demolindo paredes e abrindo janelas para um mundo conectado, mestres e pupilos passam a estabelecer uma nova relação baseada não na transmissão unilateral do saber, mas no compartilhamento de informações e na construção coletiva do conhecimento.

Neste novo cenário, a formação dos docentes clama por um novo olhar em que não adianta apenas ser didático e saber ensinar o currículo específico. Apoiar o desenvolvimento dos estudantes da geração de nativos digitais implica, entre muitos desafios, em conhecer e orientar a como utilizar uma infinidade de recursos digitais que farão parte do futuro cotidiano profissional.

O maior desafio não é simplesmente incluir as tecnologias digitais na educação, mas manter-se atualizado com o surgimento todos os dias de novas ferramentas, aplicativos, hardwares e softwares que irão colocar – e já estão colocando – uma pá de cal definitiva no modelo giz, lousa, livros, carteiras enfileiradas e, principalmente, em professores despejando roboticamente conteúdos pré-moldados que os alunos jamais irão empregar e nem mesmo se lembrar na vida profissional.

Não há como negar que nossas escolas precisam muito mais que computadores e banda larga, assim como não há como ignorar o impacto que que elas continuarão trazendo ao processo educacional. Deixar de investir na formação de docentes para que estejam aptos a lecionar utilizando novos recursos pedagógicos certamente não é a decisão mais inteligente. Professor também precisa ser plugado ou será reprovado na Educação 3.0!

(*) Luciana Maria Allan será uma das palestrantes da Bett Educar 2017.

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Luciana Allan

Diretora do Instituto Crescer para a Cidadania e Doutora em Educação pela Universidade de São Paulo (USP) com especialização em tecnologias aplicadas à educação

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