Reconquista da interação social

Betina von Staa
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Uso da tecnologia na educação também permite interação social

 

Quem acompanha meu trabalho há algum tempo sabe que sou uma defensora da educação a distância e da adoção de tecnologia educacional. Não há dúvida de que a tecnologia amplia o nosso alcance, nossa memória, nossa capacidade de calcular, entre muitas outras capacidades, e que veio para ficar, tanto na sociedade em geral quanto na educação em particular.

Por outro lado, tenho que confessar que tenho uma formação humanista – estudei Letras, no milênio passado, sem e-mail ou internet; usava bibliotecas com livros em papel e já entreguei trabalhos digitados em máquinas de escrever comuns. Esta memória anda me sacudindo e sussurrando nos meus ouvidos que a inovação na educação não pode estar somente onde as telas estão.

Vamos contextualizar um pouco a questão das telas. Temos muitos indícios de que o conceito de inovação está relacionado a telas no imaginário de muitas pessoas. As imagens de futuro são repletas de telas e robôs, o que faz bastante sentido – as telas e os robôs são a novidade e nós humanos já estamos perambulando por esse mundo há tempos, e parece que ficamos meio sem-graça. Mas, que fique bem claro: Não são as imagens de telas que me assustam. São as imagens em que as pessoas não se olham.

Tecnologia pode e deve incentivar a interação social

Resolvi fazer uma análise rápida e superficial das imagens que se publicam a respeito do futuro da educação. Uma busca por “educação futuro” no Google, praticamente só traz imagens de pessoas interagindo com telas. Em uma busca rápida em publicações que lidam com educação, futuro e inovação, inclusive a capa da Economist de 22 de junho de 2017, encontrei uma imagem em que o professor olha para uma aluna, duas imagens de alunos organizados em pequenos grupos e se olhando e 39 de uma ou mais pessoas interagindo com telas sem olhar para outra pessoa. Nossa concepção de inovação e de futuro, em geral, não parece incluir pessoas que se olham. No entanto, isso é cada vez mais importante.

Em um mundo hiperconectado, com conteúdo disponível em forma de texto, imagens, vídeos e simuladores, em que é possível aprender de forma adaptativa e personalizada, o que ocorre quando alguém precisa de ajuda? De onde vem a motivação para o aluno dedicar seu precioso tempo e atenção àquele conteúdo e não a qualquer outra distração? Como uma pessoa vai ser estimulada a criar algo novo para tornar o mundo melhor? Estas questões ainda são melhor resolvidas por humanos – que precisam se olhar, olhar o mundo e criar soluções para os desafios que encontramos pelo caminho.

Curiosamente, neste contexto em que estamos maravilhados com a tecnologia, surgem, com cada vez mais força, demandas por Metodologias Ativas, Design Thinking, Sala de Aula Invertida, Aprendizagem Híbrida, Aprendizagem por Projetos e desenvolvimento de competências socioemocionais, em geral. Estas formas de abordar a sala de aula, podem envolver muita tecnologia, mas seu sucesso depende, principalmente, da interação humana para que o jovem desenvolva senso de propósito, para que aprenda a compartilhar as suas ideias e defender seu ponto de vista, para que persista e supere dificuldades, para que pergunte, discuta, interaja e apresente empatia.

“É aqui que compreendemos o paradoxo da inovação na educação: quanto
mais usamos tecnologia socialmente e em contextos de aprendizagem, mais importante é reservar um tempo em sala de aula para desenvolver as habilidades de interação social.”

A inovação como solução para problemas concretos que nos afligem nunca estará completa sem o componente humano e o tecnológico. Se ficarmos maravilhados com a tecnologia, podemos deixar de levar em conta uma parte importante do processo de formação dos indivíduos mediado pela nossa flexibilidade, capacidade de interação e criatividade. Isso significa que a Educação a Distância não oferece uma formação completa? Nem um pouco. Afinal, já há tecnologia em que as pessoas se veem, interagem e colaboram a distância, até em tempo real.

Distância física e tecnologia não são o que afasta as pessoas. Esquecer de olhar para o outro por que estava envolvido com recursos mais brilhantes, modernos e atraentes, sim. Pense nisso, e vamos reservar tempo para inovar no componente das interações sociais. Ele é vastíssimo!

Betina von Staa

Betina von Staa

Coordenadora do CensoEAD.BR, da Abed e designer Pedagógica na TransFor.Me

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