Sobre professores, inovação e historias de sucesso

Fábio Reis
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O que faz um professor ter sucesso em suas atividades em sala de aula? O sucesso entendido como aprendizado e engajamento dos estudantes. O jornal The Chronicle of Higher Education publicou o relatório “Innovators: 10 classroom trailblazers”, apresentando histórias de sucesso. O relatório é relativamente simples. O objetivo não foi fazer um ranking ou listar os 10 professores top dos Estados Unidos. O objetivo foi apresentar 10 referências de professores do ensino superior que despertam a paixão pelo aprendizado. Provavelmente temos professores assim em nossas instituições, correto?

Cabem algumas perguntas antes de prosseguirmos. Nós valorizamos esses professores? Se não temos esses professores, qual o motivo? Nós investimos nos docentes? Estamos preocupados com o aprendizado dos estudantes? As respostas podem sinalizar se escola é competitiva ou não.

Há gestores muito mais interessados no tema da evasão do que no tema da capacitação docente. Ambos são importantes. Sabemos que a evasão pode ser evitada por atitudes de prevenção, gestão da informação ou por uma boa conversa com o estudante. Porém, a evasão também pode ocorrer pelo desinteresse pelo aprendizado. Não podemos explicar a baixa captação de estudantes unicamente pela crise econômica do Brasil.

A baixa captação também pode ser compreendida pelo fato de não despertarmos o interesse dos jovens, especialmente quando a IES não tem valor agregado. Provavelmente, a IES que não tiver uma proposta acadêmica consistente e uma identidade evidente para os jovens não despertará o desejo do aluno em estudar nessa instituição. Se não há valor agregado, o jovem vai escolher a IES pela conveniência. Escrevo isso em função do relatório do “Innovators”. A evasão se combate com um bom propósito acadêmico e com bons professores.

Professora ensinando alunos

Os professores que são referências no relatório despertam o desejo pelo aprendizado e dialogam com os alunos. Recentemente, no 19º. Fórum do Ensino Superior realizado pelo Semesp, foi perguntado para o Serginho Groisman, que fez a palestra de encerramento do evento, qual era o segredo dele para se manter como referência para os jovens. A resposta foi simples: eu ouço, respeito e dialogo com os jovens; eu dou voz aos jovens. Simples e sensacional. É o que está presente no relatório do “The Chronicle”.

Professores petulantes e com um “ego maior que a sala de aula, e às vezes maior que a própria escola” estão fora do lugar, ou seja, fora do tempo que estamos vivendo. Aliás, petulância e ego não deveriam ser uma característica dos professores. Tudo indica que esse professor não terá muito espaço em nossas escolas. É preciso valorizar quem está disposto a ser um professor que é referência para seus estudantes.

Atenção, todo professor é um educador. Professores do nosso tempo estão dispostos a aprender, a reaprender e a refazer suas aulas. Assim como falamos para nossos alunos que eles nunca devem parar de apreender, o mesmo vale para qualquer profissional, especialmente para o professor. Um professor tem que ser um especialista em jovens. Dar a voz para o estudante e dialogar com ele deve ser algo corriqueiro. Por que não perguntamos como os estudantes querem aprender e como eles podem ser mais felizes com as nossas aulas?

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Como li um relatório de um jornal norte-americano, faço referência aos seus textos. Mas poderia perfeitamente recorrer a vários educadores brasileiros, como Paulo Freire, por exemplo. Ou também a um outro especialista em educação e em jovens, Dom Bosco, fundador da Congregação Salesiana.

Especialistas em educação sabem que é preciso dar voz e protagonismos aos jovens e que o professor educador é um dos pilares do sucesso da escola.

Um dos artigos mais instigantes do relatório é “Newer Education for Our Era: students need not only to adapt to a changing world but to be able to change the world” (“Nova educação para nossa era: os alunos precisam não só se adaptar a um mundo em mudança, mas também poder mudar o mundo”). O artigo escrito por Cathy N. Davidson fala que a nova educação deve ser interdisciplinar (superar a tradicional fragmentação das disciplinas), valorizar a experiência, a criatividade, a flexibilidade, a colaboração, a resolução dos problemas sociais, o engajamento social, o exercício da cidadania e tecnologia e a comunicação digital. Qual a novidade? Provavelmente nenhuma. Se não há novidade, recomendo um exercício: liste as ações que você ou sua IES realiza de forma concreta tendo como parâmetro os itens indicados por Davidson.

Cathy Davidson cita o artigo “The New Education”, escrito por Charles W. Elliot, em 1869, no jornal “The Atlantic Montbly”. Elliot foi presidente da Universidade de Harvard e exerceu um importante papel em transformar Harvard, no que é hoje. Ele começa o texto com uma pergunta: “What can I do with my boy?” Elliot estava preocupado com os rumos da educação superior e temia que as universidades se tornassem obsoletas. Para ele, as universidades não preparavam os estudantes para as novas profissões, num ambiente de expansão do capitalismo.

Parece que o ensino superior passa por diferentes crises, em diferentes momentos da história. Estamos vivenciando um contexto de ascensão da 4º. Revolução Industrial, que sem dúvida irá impactar o ensino superior. O debate sobre o valor do ensino superior é atual. Novamente as nossas IES correm o risco de se tornarem obsoletas. Provavelmente agora o risco é bem maior, pois os avanços da tecnologia e as mudanças comportamentais são mais intensas. Temos mais incertezas do que certezas sobre as transformações que vão ocorrer no ensino superior nos próximos anos.

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Gestores e professores devem ser especialistas em jovens

Os professores que são referências no relatório realizam suas atividades em IES que propiciam a inovação, incentivam os experimentos e não punem eventuais insucessos. O ambiente que os professores vivenciam é de inovação. Nesse caso, os gestores líderes exercem um papel primordial. Se eles não criarem um ambiente de inovação, prevalecerá o “mais do mesmo” e a escola se tonará obsoleta, distante dos jovens e do tempo que estamos vivendo. Escolas obsoletas não têm histórias para contar, porque não têm valor agregado. São escolas que vão falar da mensalidade baixa ou da bolsa de estudo, mas não vão falar do valor agregado, do aprendizado, do projeto acadêmico. Paciência. Provavelmente há gestores que querem falar de mensalidade e anunciar “Estude aqui, pois você terá futuro”. Futuro? Qual futuro, se a escola mal consegue falar de valores, de diferenciais, de identidade e de outras coisas relevantes no ensino superior?

O relatório apresenta histórias de sucesso de um professor que ensina por games; de um professor que procura tornar a história viva com teatralização e produção de vídeos – entre outras atividades -; de um professor que faz com que a literatura seja contextualizada; de um professor que desafia os estudantes problematizando os temas que desenvolve na sala de aula; de um professor que dá voz aos alunos e que, juntamente com eles, decide o desenvolvimento da disciplina; e de um professor que procura ajustar seu curso conforme o estilo dos estudantes. Enfim, são casos concretos, simples, que funcionam e dos quais, provavelmente, existem diversos exemplos no Brasil.

No Unisal, em Lorena, o professor Davi Coura ensina História através da música. Os estudantes são fãs do Davi. Professores que focam no aprendizado e que dialogam com o jovem são educadores e referências para a juventude. Eu vejo o Davi conversando e fazendo perguntas para o jovem. Seja gestor ou professor, você tem dialogado com os jovens?

Não preciso ler relatórios do “The Chronicle for Higher Education” para conhecer as práticas dos docentes. O Consórcio STHEM Brasil possui 47 IES com boas práticas de aprendizagem. Através do Consórcio, mais de 6 mil professores passaram por capacitação. Há diversas outras experiências no Brasil de capacitação e de boas práticas. Todavia, o relatório publicado dá publicidade e valoriza a prática dos docentes.
No Brasil, ainda temos que fazer coisas básicas, como valorizar a carreira docente. Outro problema grave são os nossos cursos de graduação de Licenciatura, que podem “morrer” por se tornarem cada vez mais obsoletos ou pela falta de interesse das pessoas em serem professores. Poderemos vivenciar no Brasil um apagão de docentes (falta de professores para lecionar).

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Os gestores de escola e os professores precisam ser especialistas em jovens. Como o relatório mostrou nos 10 cases apresentados, o sucesso da atividade docente depende da capacidade das escolas e dos docentes em engajar os estudantes. Nesse caso, repensar a prática docente deve ser uma atitude constante. A inovação é vivenciada institucionalmente quando gestores, professores e pessoal administrativo trabalham juntos. Caso contrário, a escola será “esquizofrênica”.

Faço uma recomendação: construam projetos sistêmicos, definam os processos, sejam assertivos e integrem as pessoas.

Fábio Reis

Fábio Reis

Diretor de Inovação Acadêmica e Redes de Cooperação do Semesp – Sindicato das Entidades Mantenedoras de Estabelecimentos de Ensino Superior no Estado de São Paulo

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