Tecnologia em sala de aula: é hora de correr atrás do prejuízo

Norton Moreira
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Em outubro deste ano, o estado de São Paulo aprovou um projeto de lei que permite o uso de celulares em salas de aula, desde que usados para fins pedagógicos. Alguns dias depois, a Assembleia Legislativa de Santa Catarina (ALESC) seguiu o mesmo caminho e encaminhou um projeto de lei semelhante. Em ambos os estados, a nova legislação estadual altera uma anterior, que proibia o uso do aparelho dentro dos limites da escola.

Artigo InovEduc - Tecnologia em sala de aula: é hora de correr atrás do prejuízoA atualização da legislação é resultado de um debate já bem conhecido entre educadores e especialistas em educação: “Devemos usar a tecnologia para complementar o ensino? Ou devemos repensá-lo para englobar a realidade tecnológica em que nos encontramos hoje?”. Apesar de positivas, as mudanças na lei chegam com atraso. São atualizações e melhorias significativas em relação à política de proibição do uso, mas que ainda estão longe do ideal.

Enquanto os professores brigam para poder utilizar algo tão banal quanto o celular em suas aulas, repetimos o erro de apenas correr atrás do prejuízo em vez de nos adiantar às necessidades. Na era pós moderna em que vivemos, escolas e instituições de ensino superior deveriam estar aptas a garantir que seus alunos saibam usar a tecnologia a seu favor, de forma ativa e segura, em vez de apenas continuarem encarando telas de forma passiva.

Capacitação de professores para uso de tecnologia é fundamental 

E não é por falta de opções tecnológicas disponíveis: algumas das escolas mais inovadoras do mundo utilizam ferramentas não só para engajar os alunos, mas também ajudá-los a desenvolver sua criatividade, aumentar sua produtividade e sua capacidade de aprendizado a longo prazo. Bom exemplo disso pode ser visto em algumas escolas de educação básica dos Estados Unidos que passaram a utilizar o aplicativo Happify em sala, com a proposta de ajudar a desenvolver habilidades e hábitos psicológica e emocionalmente saudáveis. Há uma preocupação com a saúde emocional e social, em conjunto com a educação formal.

Outro exemplo excelente para citar é o da escola norueguesa Sandvika VGS, que já foi usado como case inclusive de uma matéria da Época Negócios. Nesta escola, desde 2006 os professores e alunos utilizam computadores e celulares tanto em sala de aula quanto fora. O objetivo é ensinar os alunos um pouco de etiqueta e segurança virtual. Ensiná-los a buscar informações, verificar as fontes e até mesmo dicas de como se portar por e-mails. Em conversa com Lígia Krass (a responsável pelo artigo da Época), então coordenadora educacional e professora na Sandvika VGS Ann Michaelsen explica esta metodologia como “educação no sentido mais literal da palavra”.

É claro que a estrutura disponível nestas duas escolas é bem diferente da que temos hoje no Brasil. Mas o ponto é que é preciso começar por algum lugar. A mudança na legislação, embora chegue com certo atraso, reconhece isso.

O próximo passo, agora, é a capacitação de professores. Para que o uso da tecnologia disponível no mercado seja um sucesso nas salas de aula, é fundamental que nossos instrutores abram a cabeça e quebrem alguns paradigmas que talvez possam ter.

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Notebooks e smartphones estão de tal maneira inseridos no dia a dia das nossas crianças e adolescentes que tentar retirá-los do contexto educacional e proibi-los em sala de aula será um tiro no pé. Incluí-la, contudo, pode facilitar e aumentar a efetividade do ensino. A inclusão de jogos digitais, desenhados para complementar e engajar o ensino, são um exemplo de objeto de aprendizagem virtual com bons resultados. Há notícias e relatos de todas as partes do mundo de como brincadeiras e games ajudaram alunos a desenvolver o raciocínio lógico e o pensamento rápido.

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A utilização de livros digitais e vídeos com pílulas de conhecimento adicionais, que os alunos possam assistir em casa e incluir como forma estudo; ferramentas como Google Maps para complementar o estudo de geografia; jogos digitais que colocam em prática algumas teorias da física — estas são apenas algumas ideias de como a tecnologia pode ser extremamente útil em sala de aula. Basta um pouco de criatividade e disposição de professores e dirigentes de instituições de ensino (e aqui, me refiro à toda e qualquer instituição de ensino — desde o básico até o superior) para fazer uma ideia diferente funcionar. E, claro, ser um sucesso.

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Norton Moreira

Especialista em educação a distância e gestão do conhecimento e CEO da DTCOM — uma das maiores produtoras de conteúdo para EAD e Educação Continuada do país

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