Cientistas da Aprendizagem: quem são, o que fazem e como poderão transformar a sala de aula

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Thiago Almeida
Escrito por Thiago Almeida

Os filmes de ficção científica hollywoodianos ajudaram a construir a imagem de que cientistas são apenas sujeitos que andam de jalecos brancos e trabalham em laboratórios, manipulando instrumentos sofisticados, organismos exóticos e realizando descobertas que podem colocar a humanidade em risco ou salvá-la do apocalipse. Não que seja uma imagem incorreta. De fato, não é.

A questão é que se trata de uma visão que descreve somente o trabalho de um grupo específico de cientistas: os cientistas naturais, como os biólogos, e os das chamadas ciências puras, como físicos, químicos ou matemáticos.

Existem outros tipos de cientistas, que não atuam necessariamente em laboratórios, e que têm, como objetos de estudo, fenômenos sociais, culturais, políticos, psicológicos, entre outros. Tudo isto é também ciência.

Há quase três décadas, mais precisamente no ano de 1991, nascia um novo campo de estudos, interdisciplinar por natureza, preocupado em investigar o ensino e a aprendizagem, a partir dos processos sociais e cognitivos responsáveis por melhorar o aprendizado dos seres humanos, de modo a permitir o re-design da sala de aula: Ciências da Aprendizagem (The Learning Sciences).

Este novo campo do conhecimento surgiu reunindo cientistas de diferentes áreas, como psicólogos da educação, cognitivistas, antropólogos, designers, cientistas da computação, neurocientistas, pedagogos, entre outros. O ano de 1991 ficou marcado como o de sua fundação devido a realização da primeira Conferência Internacional das Ciências da Aprendizagem, e pelo lançamento da primeira edição do Journal of the Learning Sciences.

Mas o que fazem os Cientistas da Aprendizagem?

Investiga inovações na aprendizagem através de experimentos reais.

Este campo de pesquisa surgiu a partir da inquietação destes profissionais com a falta de embasamento teórico das premissas conceituais do modelo tradicional instrucional, como:

  • Aprendizagem acontece por transmissão: professor transmite seu conhecimento através da fala para os estudantes
  • Aprendizagem acontece prestando atenção: estudante escuta o professor e absorve seu conhecimento apenas ouvindo
  • Aprendizagem é uma coleção de fatos sobre o mundo e de procedimentos sobre como resolver problemas
  • Fatos e procedimentos mais simples devem ser ensinados primeiro, para depois passarem aos mais complexos
  • O sucesso escolar deve ser medido através de testes que verificam o quanto de fatos e procedimentos foram absorvidos pelos estudantes

Os Cientistas da Aprendizagem desenvolveram instrumentos e metodologias específicas para medir a eficiência e eficácia da aprendizagem, fosse em contextos tradicionais, fosse em contextos inovadores. Basicamente eles trabalham formulando hipóteses sobre como os estudantes poderiam aprender melhor através de novos modelos pedagógicos, criam experimentos reais que são conduzidos em sala de aula, e comparam os resultados com modelos vigentes.

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E foi justamente através destes procedimentos de pesquisa que nas últimas décadas estes profissionais colocaram por terra as premissas do modelo tradicional, mencionadas acima. Encontraram fartas evidências sobre como as pessoas aprendem melhor interagindo umas com as outras, utilizando a linguagem e se envolvendo em temas de interesse pessoal; demonstraram como o engajamento do estudante é maior quando confrontado com desafios e problemas reais; e construíram teorias sobre o novo papel do professor e dos estudantes, tanto em sala de aula, quanto fora dela.

Quais os principais resultados práticos já foram obtidos?

Sempre que você ouvir falar em novas abordagens pedagógicas como: Aprendizagem Baseada em Projetos, Aprendizagem Baseada em Problemas, Gamificação educacional, Aprendizagem colaborativa assistida por computador, Aprendizagem virtual, Aprendizagem informal ou Aprendizagem Mobile, saiba que se trata de abordagens criadas e refinadas pelo trabalho dos Cientistas da Aprendizagem. São eles quem criam essas novidades.

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Mesclando técnicas da pesquisa em Design, Sociologia e Computação, conseguiram elaborar novas experiências de sala de aula que se mostraram mais efetivas do que as aulas expositivas tradicionais. Mais que isso: estão demonstrando que melhorar a educação é algo que precisa acontecer através do suporte de pesquisa e evidências científicas. Muitos se perguntam qual a diferença da pesquisa em ciências da aprendizagem para a pesquisa tradicional em educação. A resposta é simples: objetivos e métodos.

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Na pesquisa em educação o compromisso do investigador, como na maioria das ciências, é com a teorização, e não com a prática. Isto gera diversos estudos muito interessantes, porém muitas vezes apenas descritivos, sem a capacidade de orientar ou prescrever novas formas de se conduzir as coisas na vida real.

Já a pesquisa nas ciências da aprendizagem tem um objetivo claro: criar e validar novas abordagens pedagógicas. Isto faz com que a forma de pesquisar não seja apenas comprometida com a teoria, ao contrário, seu foco é a prática, e a geração de conhecimentos que instrumentalizem os educadores e gestores educacionais para implantar inovações na aprendizagem.

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No Brasil o trabalho destes profissionais ainda é pouco lido e acessado. Para quem tiver interesse, vale conhecer o livro The Cambridge Handbook of The Learning Sciences, editado em 2014 por R. Ketih Sawyer, onde há 36 artigos que apresentam desde a história e as metodologias de trabalho deste grupo, até futuros caminhos de pesquisa sobre o tema.

Precisamos formar Cientistas da Aprendizagem, e que eles atuem em nossas escolas e universidades. É o caminho que nos dará mais confiança para evoluir nosso sistema educacional e transformar nossas instituições de ensino em verdadeiras instituições de aprendizagem.

Thiago Almeida

Thiago Almeida

Idealizador da Escola HUB. Doutor pelo Instituto COPPEAD/UFRJ, é pesquisador membro da International Society of the Learning Sciences (ISLS), com foco de pesquisa nos temas Inteligência Artificial na Aprendizagem, Empreendedorismo Educacional e Gestão da Inovação na Educação.