As edtechs e a Base Nacional Comum Curricular

Thiago Almeida
Escrito por Thiago Almeida

SchumpeterO austríaco Joseph Schumpeter (1833-1950) foi um dos primeiros economistas a estudar o empreendedorismo sob a perspectiva da inovação. Em 1942, seu livro “Capitalismo, Socialismo e Democracia”, apresenta o conceito de “destruição criativa”, que viria a ser fundamental para a compreensão das transformações que marcaram o panorama socioeconômico durante do século XX.

O conceito de destruição criativa ajuda a explicar os ciclos econômicos que caracterizam o desenvolvimento do sistema capitalista, assim como ilumina o papel e a relevância dos indivíduos empreendedores neste processo.

O entendimento teórico do trabalho de Schumpeter contribuiu para o sucesso de diversos empreendimentos. Assim como também ajudou a evitar muitos fracassos empresariais ao indicar como determinados projetos possuem um timing específico para chegar ao mercado, garantindo lucros ou evitando prejuízos.

Mas o que Schumpeter tem a ver com Educação?

Atualmente, ele tem tudo a ver.

O economista austríaco argumentava que os ciclos econômicos sempre se originam a partir do surgimento de novas oportunidades no mercado, e estas, seriam produzidas, invariavelmente, por três fontes de mudanças:

  1. tecnológicas
  2. sociais e demográficas
  3. regulatórias

Para Schumpeter, o empreendedorismo só existe se existirem oportunidades.

Apesar de neste momento estarmos assistindo aos três tipos de mudanças se manifestando no setor educacional brasileiro, a categoria “mudança regulatória” se destaca pelo impacto que provocará nos próximos dois anos no país, a partir de uma nova diretriz publicada pelo Ministério da Educação: a Base Nacional Comum Curricular.

O que é a Base Nacional Comum Curricular?

A Base Nacional Comum Curricular (BNCC) é um documento desenvolvido pelo Ministério da Educação (MEC) que apresenta uma nova proposta curricular e pedagógica para todas as escolas básicas, públicas e privadas do Brasil.

Trata-se de um movimento de reforma educacional inspirado na iniciativa de países que conseguiram transformar seus sistemas educacionais a partir de um documento capaz de oferecer diretrizes que modernizem as escolas e suas salas de aula.

A grande novidade da BNCC é seu foco em competências. O que obrigará nossas escolas a expandirem suas abordagens pedagógicas para além dos conteúdos tradicionais de Português, Matemática, Geografia, História e Ciências Naturais.

O texto da Base Nacional explica a relevância de formar estudantes capazes de pensar criativa e criticamente, desenvolvendo habilidades socioemocionais e competências para serem cidadãos digitalmente conscientes, por exemplo. O impacto desse tipo de mudança é enorme para o cotidiano das instituições educacionais.

Nossas escolas não acompanharam as mudanças que transformaram a sociedade nas últimas décadas. Permaneceram estruturadas como indústrias de replicação de conteúdo e memorização, onde ser bom aluno é ser um bom ouvinte. Onde se continua a acreditar que a aprendizagem acontece primordialmente através da escuta. E que a sala de aula é o lugar mais adequado para se aprender.

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Nossas escolas se modelaram, nas últimas décadas, para atender às demandas da indústria do vestibular. Inundaram o dia a dia dos estudantes com apostilas, listas de exercícios e simulados. Nada mais além disso. Estruturaram verdadeiras fábricas de preparação para provas. Passaram a tratar os estudantes como candidatos.

O problema é que não há como desenvolver habilidades socioemocionais através de uma apostila. Ou ajudar o estudante a construir repertório cultural, capacidade de argumentação e pensamento investigativo através de simulados.

Não se trata aqui de menosprezar a importância da preparação do vestibular para o futuro e para a vida dos estudantes, muito pelo contrário. Trata-se apenas de alertar para o fato de que, passado o vestibular, a vida continua. E o que a BNCC está propondo é uma educação que tenha mais relevância ao longo da vida dos nossos jovens e crianças.

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Para isso é preciso a adoção de novas práticas pedagógicas, já validadas em diversos países e escolas, como a aprendizagem por projetos, espaços de criação e invenção, programação infantil, robótica, artes, empreendedorismo e sustentabilidade, para não deixar a lista longa.

A Matemática, o Português, a Geografia, assim como todas as demais disciplinas continuarão tendo papel protagonista na formação escolar. Porém, deverão ganhar sentido e relevância também na vida real e cotidiana dos estudantes, deixando de ser apenas uma obrigatoriedade que os separa do sonho de entrar em uma boa universidade.

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Aprender os conteúdos passará a ser um objetivo indissociável de aprender competências importantes para a vida. Mas ensinar competências é um desafio didático mais complexo do que memorização e apostilas exigem.

Demanda recursos muito mais sofisticados do que quadros negros, listas de exercícios e aulas expositivas. E nossas escolas terão apenas dois anos para adequarem seus currículos e modelos pedagógicos à BNCC.

Mas o que as edtechs têm a ver com as escolas e com a BNCC?

Match. Elas estão muito perto de dar match.

Durante os próximos dois anos, edtechs e escolas terão ao menos uma coisa em comum: oportunidade. Se a BNCC é uma mudança regulatória, e mudanças deste tipo, segundo Schumpeter, são fontes de oportunidades empreendedoras, isto significa que as edtechs têm a chance de desenvolver soluções que ajudem as escolas a implantar a BNCC. E implantar a BNCC é uma chance para as escolas se transformarem em instituições melhores.

Neste contexto, tanto edtechs quanto escolas têm muito a ganhar.

Edtechs terão um novo panorama de mercado pela frente: mais de 180 mil escolas (das quais mais de 40 mil privadas) terão de se transformar para adotar a BNCC. E precisam de ajuda para isso. As escolas, por sua vez, necessitarão de auxílio para esta transformação, uma vez que a BNCC implica, em certa medida, em novas estruturas tecnológicas, didáticas e organizacionais.

E isto poderá ser excelente para as escolas, pois, com certeza, se tornarão mais relevantes para seus estudantes quando adotarem a BNCC.

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Nossas escolas precisarão de suporte para este processo. E é aí que as edtechs podem oxigená-las. Adotar a BNCC não significa apenas transformar o modelo pedagógico. Implica mudanças mais profundas, como:

  • formação de professores
  • reestruturação dos ambientes de aprendizagem (sala de aula) e dos espaços escolares
  • adoção de novos recursos didáticos
  • desenvolvimento de novas experiências para os estudantes e seus familiares

A presença de empreendedores na educação não é algo comum no Brasil.

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Historicamente, nossos empreendedores não são educadores, assim como nossos educadores não são empreendedores. Isto é uma das razões para o abismo que divide os mundos da inovação e da sala de aula, o que só contribuí para tornar nossas escolas mais obsoletas e menos contemporâneas.

Mas em algum momento do tempo futuro essas dimensões precisarão se conectar para nossas escolas avançarem. Caso contrário, sala de aula e inovação continuarão marcados por este abismo que os separa.

A BNCC é uma ponte que pode uni-los.

Thiago Almeida

Thiago Almeida

Idealizador da Escola HUB. Doutor pelo Instituto COPPEAD/UFRJ, é pesquisador membro da International Society of the Learning Sciences (ISLS), com foco de pesquisa nos temas Inteligência Artificial na Aprendizagem, Empreendedorismo Educacional e Gestão da Inovação na Educação.