Formação de professores para abordagens inovadoras: reflexões, desafios e grandes oportunidades

formacao-professores-thiago-almeida-inoveduc
Thiago Almeida
Escrito por Thiago Almeida

Nos últimos seis anos, em todos os projetos relacionados a inovação na aprendizagem em que participei, invariavelmente, em algum momento das discussões, alguém levantava a questão: “Mas, e os professores?”.

A pergunta reflete uma percepção, compartilhada por boa parte dos profissionais envolvidos com educação, de que os professores são o grande desafio de qualquer modelo pedagógico inovador.

No artigo desta semana, realizo uma reflexão sobre o quão justa esta percepção pode vir a ser, avaliando os desafios e oportunidades da formação de professores para abordagens inovadoras, a partir das minhas experiências como gestor de inovação pedagógica.

Crítica ao sistema de formação de professores no Brasil

O modelo de formação do professor no Brasil tem sido criticado por não oferecer aos docentes experiências educacionais inovadoras e contemporâneas. É comum que se argumente que o professor formado no modelo tradicional não terá condições de ter uma prática distinta deste paradigma, uma vez que não foi exposto a outras abordagens durante seu período de formação escolar e universitária.

Eu concordo parcialmente com este argumento. A ideia que está por trás dele soa um pouco como uma visão behaviorista dos anos 1920: aprendizagem é uma resposta aos estímulos do ambiente. Feito o cão de Pavlov. Mas, se a ciência evolui, e todos os dias as pessoas precisam aprender coisas novas, pois conhecimentos emergentes são construídos, por qual razão professores não teriam a capacidade de aprender novas práticas didáticas?

Colocarei em outros termos, mais objetivos:

Na minha visão, trata-se de um problema sistêmico, ancorado na lógica da formação do professor brasileiro: habilitação e regulação.

A lógica da licenciatura no Brasil é a lógica da habilitação. Se o professor possui o título mínimo que o habilita a entrar numa sala de aula, então ele é considerado apto para tal. Não se leva em conta seu perfil, suas competências comportamentais e emocionais, sua capacidade didática, ou suas experiências prévias. Nada disso. Apenas se ele tem, ou não, o diploma mínimo para o contexto em questão.

A lógica da regulação segue a mesma linha: não importa se o professor possui habilidades didáticas de alto padrão, leituras e estudos aprofundados sobre o desenvolvimento infantil, ou até mesmo um mestrado na área; se ele não possui um diploma de pedagogo, não poderá lecionar em boa parte das escolas brasileiras de ensino fundamental nos anos iniciais.

Mesmo sendo licenciado em Matemática, por exemplo, talvez mais bem preparado para conduzir o letramento matemático de uma criança de 7 anos, ele não poderá, pois não tem o certificado exigido. E desde já deixo claro que aqui não se faz crítica alguma ao trabalho dos pedagogos. Ao contrário. A critica é à lógica do sistema de formação. A oportunidade será concedida a quem tem o certificado, e não, necessariamente, a competência.

É desta maneira que o sistema de formação de professores no Brasil é organizado: Instituições de ensino se candidatam a oferecer graduações para formar professores, recebem inspeção do Ministério da Educação, preenchem os requisitos mínimos, recebem a autorização para oferecer seus cursos. Candidatos ao vestibular realizam suas provas, iniciam as aulas, alcançam a pontuação mínima, normalmente média 6 ou 7, obtém seus diplomas e começam a lecionar. Tudo baseado em habilitação e regulação. Nada baseado em competência e qualidade. Um sistema que ignora as especificidades, que se atém somente às generalidades, e que se parece mais com uma fábrica de certificações.

Professores formados para ensinar e não para aprender

formacao-professores-thiago-almeida-inoveducPortanto, na minha experiência com formação de professores, o problema não me parece ser o fato dos docentes terem recebido uma educação instrucional tradicional, mas sim o fato de terem recebido uma educação para ensinar, e não para aprender constantemente.

Nossos professores não são preparados para aprender a aprender. E por isso, sofrem tanto quando, após quatro anos de formação universitária, alguém diz a eles que é preciso investir na “formação continuada”. Ora, que mais há para aprender, se já tenho meu diploma?

. Professores de Matemática dizem como é a formação continuada que desejam

Ninguém cobra do professor, durante sua formação, aprendizagem de qualidade. Ninguém cobra desenvolvimento de competências. É provável que a maioria dos docentes brasileiros tenha sido formada sem uma única avaliação oral ou baseada em interações. Apenas notas, provas, médias e certificados. Como então exigir deles, após a obtenção da única coisa valorizada pelo nosso sistema, o diploma que habilita, que continuem aprendendo coisas novas, e tenham postura aberta às inovações, e que tenham curiosidade e criatividade para criar experiências de aprendizagem inovadoras para seus estudantes?

Complexo, pois o sistema os modelou para obter o diploma. Seleção natural. É como o ambiente opera, e é preciso sobreviver.

Sem desenvolver capacidade de aprender, nossos professores jamais se tornarão preparados para adotar abordagens inovadoras.

Professores que gostam de aprender

Mas nem tudo está perdido. Ao contrário. Há muitos professores manifestando desconforto com o sistema de formação, ou com a falta de espaço para inovar, ou com a obrigatoriedade de seguir a linha reta, apesar de tortuosa, dos sistemas de ensino ou dos livros didáticos.

. Celso Lisboa e Inoveduc promovem curso sobre metodologias ativas

Há muitos professores que escolheram a profissão dado a paixão que cultivam pela aprendizagem. Confesso que foi, inclusive, o meu caso. Me tornei professor pois gostava tanto de aprender que sonhava passar minha vida realizando um trabalho que me exigiria aprender coisas novas todos os dias.

. Teacherpreneur: saiba como se tornar um professor empreendedor

É a partir deste perfil docente que todo trabalho de inovação pedagógica deve sempre começar. Esqueça a média, a regra regulatória ou os certificados: procure pelo talento, pelo brilho no olho, pelo desejo de transformar. Se estivermos atentos, enquanto gestores educacionais, para os fatores humanos, perceberemos que não é difícil farejar, dentro de nossas instituições, quem são os docentes talentosos, que anseiam pela mudança, e se colocam abertos para isso.

Grandes oportunidades?

O Brasil tem tudo para ser o país da educação. A essência do que nos fez um dia o país do futebol, e do carnaval, é a mesma que poderá nos alçar a condição de uma verdadeira pátria educadora: a criatividade, inventividade e alegria de inovar.

A essência do nosso futebol e do nosso carnaval é essa: criação, invenção e alegria.

Porque nossas escolas de formação de professores precisam ser baseadas na atmosfera sombria da regulação e da habilitação?

Lecionar é uma atividade criativa, venho repetindo isso há pelo menos três anos. Minha experiência profissional começou no mercado publicitário, fui estagiário de criação de agência de propaganda. Portanto, digo com convicção: criar experiências educacionais é uma tarefa tão criativa quanto criar comerciais de TV e anúncios de revista.

Enquanto nosso modelo de formação de professores se assemelhar mais a um chão de fábrica do século XIX do que a uma exposição de arte contemporânea do século 21, permaneceremos formando docentes tristes, desestimulados e descrentes da profissão.

Os primeiros a perceber isso serão os líderes de uma grande transformação na educação brasileira. Será que daqui a 15 anos, falarão sobre nós com o mesmo entusiasmo com que falam sobre a Finlândia? Eu gostaria muito de trabalhar arduamente para isso. E você?

Thiago Almeida

Thiago Almeida

Idealizador da Escola HUB. Doutor pelo Instituto COPPEAD/UFRJ, é pesquisador membro da International Society of the Learning Sciences (ISLS), com foco de pesquisa nos temas Inteligência Artificial na Aprendizagem, Empreendedorismo Educacional e Gestão da Inovação na Educação.