Até que ponto a imagem se opõe à imaginação na cultura digital?

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Os mais alarmistas em relação aos riscos da cultura digital na educação chamam a atenção para o predomínio dos estímulos audiovisuais nas interações com a informação e o conhecimento, o que prejudicaria a imaginação criativa na formação das crianças e dos jovens. A exposição excessiva às imagens digitais comprometeria o hábito e a competência de ler textos escritos, limitando o pensamento inventivo.

Alguns identificam a era digital com a quebra da hegemonia da palavra, quando textos escritos são asfixiados ou substituídos pelas imagens. Uma evidência seria o fato de que, para muitos estudantes, ler um texto ou ouvir uma palestra sem o auxílio de recursos audiovisuais seria um desafio quase intransponível, já que a geração dos nativos digitais está acostumada à comunicação cada vez mais visual.

É preciso, no entanto, evitar uma visão simplificadora na qual a rivalidade entre palavra e imagem imponha uma falsa escolha, como se o texto escrito fosse a única fonte de conhecimento e subsídio para uma mente criativa, por mais que se reconheça a centralidade da escrita na história do conhecimento.

Também se deve reconhecer que a imagem sempre esteve a serviço da expressividade, como linguagem que representa ou recria a realidade por meio de formas, linhas, cores, sombra e luz.

Das pinturas rupestres à fotografia digital

Aliás, os registros materiais de comunicação mais antigos são exatamente as pinturas rupestres, encontradas em fundos de cavernas de sítios arqueológicos na Europa ou mesmo no Brasil, como na Serra da Capivara, no Piauí, e em Pedra Pintada, no Pará.

imagem-imaginacao-cultura-digital-inoveducSe a invenção da escrita e da imprensa, em diferentes momentos, impulsionaram o uso do texto ou dos livros na educação, isso não invalida o fato de que imagens também educam. O fato de a linguagem verbal ter se constituído em meio privilegiado de manifestação do pensamento abstrato, de um conhecimento mais sofisticado, não deve levar à negação do valor da linguagem não-verbal na construção do conhecimento ou apreensão do mundo.

. Atividades plugadas e desplugadas aplicáveis à cultura digital

É claro que nem toda imagem tem poder pedagógico e muitas podem deseducar ou promover sentimentos deploráveis. Mas há imagens que contribuem para que conceitos, processos e fenômenos sejam hoje melhor compreendidos.

. Impactos da indústria 4.0 na cultura digital

Planisférios, mapas, gráficos, fotografias digitais, imagens de alta resolução, animações e tanto outros recursos visuais permitem a representação da realidade e a construção de conhecimento. Mais do que isso, com a digitalização das imagens, é possível interagir criativamente com o que é representado.

Cultura digital é desafio para educadores

Também deve ficar claro que nem toda imagem ofusca a imaginação. A imagem que possui qualidades estéticas, que provoca a contemplação ou que permite a interação pode ser uma forma de leitura do mundo, de aprendizado e de exercício da imaginação.

Se ler uma narrativa literária sem imagens pode estimular a imaginação, contemplar uma imagem sem legendas ou apoio de outro texto pode instigar a curiosidade e despertar relações com outras imagens, outras linguagens, outras vivências. Imagens artísticas podem desafiar nossa percepção da realidade. Fotografias e vídeos podem revelar ângulos ou enfoques a partir de determinados recortes ou interesses.

As imagens, além de ser decodificadas e compreendidas, podem ser degustadas, vivenciadas, e apropriadas, provocando imagens mentais que ajudam tanto na formação quanto no exercício da imaginação e da fantasia criativa, tornando a vida mais interessante. Eis aí o grande desafio para os educadores nesta era midiática.

Luís Cláudio Dallier Saldanha

Luís Cláudio Dallier Saldanha

Doutor em Educação, diretor de Serviços Pedagógicos da Estácio, autor do livro "Fala, oralidade e práticas sociais", entre outras publicações e artigos sobre tecnologia educacional, educação a distância e estudos linguísticos. Tem atuado como professor e palestrante no Ensino Superior há vários anos. Foi Diretor Nacional do Centro de Ensino de Licenciaturas da Estácio entre 2015 e 2016