Metodologias Ativas – Parte 2: Aprendizagem Baseada em Equipes

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Thiago Almeida
Escrito por Thiago Almeida

Neste segundo artigo da série “Metodologias Ativas”, o tema central será a técnica conhecida como Aprendizagem Baseada em Equipes, ou TBL (sigla em inglês que significa Team-based Learning).

. Metodologias Ativas – Parte 1: Aprendizagem Baseada em Projetos

O objetivo é discutir alguns dos seus componentes conceituais e oferecer uma visão prática da metodologia no contexto brasileiro, uma vez que, como professor, trabalhei por quatro anos consecutivos aplicando a técnica em cursos de graduação e pós-graduação.

Aprendizagem Baseada em Equipe

O que é?

É uma metodologia ativa orientada para o desenvolvimento do pensamento analítico dos estudantes, através da aprendizagem em pequenos grupos, que considera estágios de trabalho em nível individual, em equipe, e com feedback imediato do professor. Sua estrutura potencializa a força do trabalho colaborativo, do senso de grupo e estimula níveis altos de engajamento nos estudantes.

. Empreendedorismo potencializa conceitos das metodologias ativas

A aprendizagem por equipes não deve ser tratada como um exercício ou atividade complementar às aulas expositivas. Assim como também não deve ser encarada como trabalho em grupo. Trata-se de uma técnica estruturada, com início, meio e fim, onde cada etapa possui função didática específica.

Sua fundamentação teórica central reside na teoria da aprendizagem do pesquisador russo Lev Vygotsky, que argumenta em favor de um processo de onde os participantes utilizem a linguagem e interajam uns com os outros, de forma a gerar problematizações, questionamentos, embates de ideias e consensos.

Os participantes iniciam o processo com diferentes níveis de conhecimentos sobre os assuntos abordados e é justamente esta heterogeneidade de conhecimentos e pontos de vista que enriquece o processo de aprendizagem.

Como se aplica?

A aprendizagem por equipes é uma atividade que acontece durante o horário da aula, provavelmente demandando todo o tempo disponível. O professor precisa definir, em seu planejamento, quais os conceitos e habilidades que deseja trabalhar com seus estudantes, e selecionar material de estudo que apresente tais conteúdos.

A partir desta seleção, ele irá construir questões que envolvam raciocínio analítico e que exijam dilemas e decisões por parte dos estudantes. Cada aluno viverá o processo de debater as questões 3 vezes: primeiro individualmente, depois em equipe e por fim numa grande discussão entre todas as equipes.

O processo completo envolve 5 etapas

Como se avalia?

A aprendizagem por equipes oferece a possibilidade de uma avaliação diagnóstica e de avaliação formativa. Normalmente a maioria dos professores realiza apenas a primeira opção, gerando as notas a partir da pontuação alcançada por cada estudante nas etapas individuais e em equipe. Porém é possível acompanhar a participação de cada aluno dentro do seu grupo e na discussão entre os grupos e avaliar estas contribuições. No caso de turmas menores é um processo que se torna mais factível, ao passo que em turmas maiores, mais desafiador para ser realizado.

O que não é aprendizagem por equipes?

Aprendizagem baseada em equipes não é:

  • Trabalho em grupo
  • Avaliação
  • Revisão para prova

É normal professores confundirem a aprendizagem baseada em equipes com trabalho em grupo ou atividade complementar às aulas expositivas. É muito importante frisar que a aprendizagem baseada em equipes substitui a aula expositiva. Ela elimina a necessidade do professor expor conteúdos antes da ação dos estudantes. Ela é uma técnica de aprendizagem, e não de avaliação.

Professores costumam também adotar a aprendizagem por equipes como preparação ou revisão para provas. Trata-se de um uso equivocado, uma vez que o registro na literatura aponta para a necessidade de um uso contínuo da metodologia para que os estudantes se adaptem e passem a desenvolver processos de estudo adequados ao ritmo da técnica.

Portanto, utilizar como preparação para prova não faz sentido, a menos que a prova seja no formato da metodologia, caso contrário os professores estarão preparando seus alunos para algo que não acontecerá. Preparar o aluno para uma prova com questões abertas individuais através de uma atividade onde as questões são de múltipla escolha e exigem trabalho em equipe, parece não fazer muito sentido.

Fatores Críticos de Sucesso

Para funcionar de maneira fluida, a aprendizagem por equipes exige do professor acertar em alguns quesitos fundamentais. Uma vez que se trata de uma técnica estruturada, com início, meio e fim, é preciso garantir uma boa experiência em todas as suas dimensões.

  1. Garantir que o material de estudo disponibilizado apresente os conceitos que serão trabalhados nas questões de forma clara e objetiva
  2. Garantir que as questões poderão ser respondidas a partir do conteúdo estudado antes da atividade
  3. Garantir que o nível de dificuldade das questões seja adequado ao contexto dos estudantes
  4. Garantir que o tempo para desenvolvimento das questões seja adequado
  5. Ao detectar que uma questão foi mal formulada, indicar isso imediatamente para a turma, podendo, inclusive, anular a questão, evitando sentimento de injustiça por parte dos estudantes (uma vez que vale nota)
  6. Evitar indicar qual é a resposta certa antes da etapa final de feedback 

Minha experiência com Aprendizagem Baseada em Equipes e recomendações gerais

Poucas vezes vi turmas tão vibrantes durante uma aula quanto minha experiência com aprendizagem por equipes proporcionou. No entanto, alguns cuidados são fundamentais para garantir que a experiência funcione bem.

. As metodologias ativas e a educação a distância

Em primeiro lugar, é importante desenhar o curso previamente levando em conta todas as aulas em que a atividade acontecerá. É crucial que no primeiro dia de aula, durante o contrato pedagógico, o calendário seja apresentado e os estudantes tomem consciência de que a metodologia será central durante o curso.

Realizar a aprendizagem por equipes uma ou duas vezes durante um semestre ou ano não permitirá que os alunos compreendam sua dinâmica de funcionamento, e assim não desenvolverão os processos de estudo adequados. Eu sempre observei melhores resultados quando oferecia aos alunos a opção de preparar um resumo, escrito à mão, em apenas uma página, frente e verso, para ser utilizado como consulta durante a atividade.

Isto não apenas organizava o processo de estudo deles, como também evitava a postura de “loteria” que muitos costumam adotar.

Na minha experiência, o desafio maior sempre foi na criação das questões. Funciona melhor quando se escreve as perguntas com o material de estudo disponível, de forma que o professor consiga prever como o estudo será capaz de permitir, ou não, que o estudante identifique a resposta correta.

. Metodologias ativas e tecnologias aplicadas à educação

As perguntas precisam ser interessantes e precisam suscitar o debate na etapa 3, a discussão em equipes. Precisam gerar dúvidas, mas precisam indicar os conceitos corretamente. Qualquer margem de dúvida fará os estudantes perderem confiança no processo, e passarão a não se engajar mais.

No próximo artigo nosso tema será Método do Caso. Até lá!

Se você tiver interesse em se aprofundar na aprendizagem por projetos ou quiser tirar dúvidas e pedir dicas, escreva para mim: [email protected]

Thiago Almeida

Thiago Almeida

Idealizador da Escola HUB. Doutor pelo Instituto COPPEAD/UFRJ, é pesquisador membro da International Society of the Learning Sciences (ISLS), com foco de pesquisa nos temas Inteligência Artificial na Aprendizagem, Empreendedorismo Educacional e Gestão da Inovação na Educação.