Escola técnica do Rio usa sucata em projetos de robótica

Escola do Rio usa sucata em projetos de robótica

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É cada vez mais comum instituições de ensino colocarem em suas grades atividades que envolvam tendências tecnológicas, como aulas de robótica. Tais atividades tornam o aprendizado dos conteúdos mais atraentes para os alunos.

Mas nem sempre é preciso uma estrutura de última geração para oferecer aos estudantes uma aula diferenciada e com elementos tecnológicos. A Escola Técnica Estadual Ferreira Viana, da rede Faetec (Fundação de Apoio à Escola Técnica), no Rio de Janeiro, é prova disso.

Na escola, situada no bairro do Maracanã, Zona Norte da cidade, os alunos têm oportunidade de aprender robótica e até de participar de competições, ainda que não tenham acesso a todos os recursos necessários. A solução encontrada foi a reutilização de materiais considerados sucata.

Curso de robótica aposta em reciclagem para driblar falta de material

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Robô desenvolvido na ETE Ferreira Viana

Sem recursos para investir em equipamentos novos, os alunos utilizam sucatas para desenvolvimento dos projetos. Algumas peças são extraídas de equipamentos eletrônicos inutilizados como, por exemplo, computadores que poderiam ir para o lixo. A iniciativa é do professor de física César Bastos.

O professor explica que eles recebem equipamentos descartados e os estudantes recuperam o que puder ser reaproveitado para utilizar em seus projetos.

Outra fonte de recursos para os projetos era o bolso do próprio professor. “Eu também faço pesquisa, então escrevia para fontes de órgão financiadores de pesquisa pedindo verba e ganhei alguns prêmios. O dinheiro que ganhava com esses prêmios eu comprava material para cá, mas agora está complicado”, lamentou ele.

O  laboratório onde a equipe trabalha atualmente foi construído em consequência do selo “Gestão de Qualidade ISO”, em 2014 – que os alunos e o professor receberam em um de seus projetos. Antes disso as aulas eram realizadas no laboratório de física da escola. Mas a estrutura ainda está longe de ser a ideal.

“A organização (responsável pelo selo de qualidade) que entrou em contato com a Faetec disse que iria dar sala, mesas e computadores novos, tudo que gostaríamos de ter como a escola privada. Eles vieram e montaram essa sala, separaram a carpintaria, pintaram e colocaram a divisória, depois disseram que o governo não tinha mais dinheiro. Aí trouxemos a equipe a sucata que estava lá para cá.”

Alguns materiais mais básicos, como papéis e placas de isopor, foi César mesmo quem comprou. Outros, como pedaços de madeira, são encontrados na rua e levados para o laboratório para serem reaproveitados pelos alunos.

“Eu cobro muito deles, muito mais do que numa escola particular, e eles respondem. Eles sabem que numa maratona para correr 100 metros, eles vão precisar treinar 400. Claro que nem todos conseguem e a gente entende, mas tem uns que conseguem e esses são os campeões”, vibra o professor.

Curso visa integração entre alunos de todas as áreas

César decidiu incorporar às suas aulas de física aplicações práticas para o que era ensinado na teoria. A proposta era que essas atividades integrassem conceitos abordados pelas diversas opções de cursos técnicos oferecidos na unidade (Eletrônica, Eletrotécnica, Edificações, Mecânica e Telecomunicações).

O curso robótica em si teve início em 2009, quando a direção da escola sugeriu que o professor ficasse apenas com esse projeto, após perceber o entusiasmo dos alunos com as aulas diferenciadas de física.

No início, o processo de seleção dos participantes do curso funcionava da seguinte forma: era feita uma palestra onde todo o projeto era apresentado aos alunos. Depois disso, os interessados deveriam preencher um formulário com seus dados e responder por que gostariam de participar do projeto.

César não queria que os estudantes fossem selecionados por meio de uma prova. “Não é um curso para ver quem é melhor, muito pelo contrário, é um curso de inclusão. A ideia era criar um espaço onde alunos de todos os cursos pudessem se integrar e criar projetos usando todo o conhecimento que eles aprendem na escola”, enfatizou.

Este ano, o professor modificou um pouco a forma de seleção desses alunos. Os conteúdos relativos à primeira parte do curso são disponibilizados em um ambiente virtual de aprendizagem. Dessa forma, todos os estudantes, mesmo que não entrem para a turma, podem ter acesso à esse primeiro módulo.

Módulos do curso de robótica da Escola Técnica Estadual Ferreira Viana, no Rio
Módulos do curso de robótica da Escola Técnica Estadual Ferreira Viana, no Rio

 

“A primeira parte é toda online, então todos os alunos vão poder fazer ao mesmo tempo. Eu vou passar para eles 20 atividades, os primeiros que as completarem corretamente vão entrar para turma”, explicou César.

Ao todo, são 20 vagas na turma. César explica que a medida que os alunos mais antigos vão saindo – geralmente no 3° ano quando começam a se preparar para o vestibular -, outros vão sendo chamados para a equipe.

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Alunos compartilham suas experiências adquiridas através do projeto

Imagem-Kamylla-Oliveira-aluna-do-curso-de-robótica-ete-ferreira-vianaKamylla Oliveira – 3°ano – Telecomunicações
“Meu interesse pela robótica surgiu a partir do momento que eu poderia ter meu espaço na escola, poderia participar, fazer meus próprios projetos. Também tinha curiosidade de poder fazer algo que eu quisesse programar ou então montar um robô do jeito que eu queria. Através da robótica passei a ter mais interesse pelas coisas, mais curiosidade de querer entender e não só fazer. Na robótica a gente desenvolve muito isso, a criatividade e também o improviso, saber lidar com o que temos.”

Imagem-Daniel-Borges-aluno-do-curso-de-robótica-ete-ferreira-vianaDaniel Borges – 2°ano – Eletrônica
“Alguns alunos que participavam me recomendaram e disseram que era interessante, dava um reforço a área técnica. E eu me interessei principalmente pela parte de programação e eletrônica. Eu participei do TJR (Torneio Juvenil de Robótica) em outubro do ano passado e como eu estava estudando robótica há pouco tempo, foi bem complicado. Precisamos nos virar de um jeito que não estávamos acostumados. A montagem tava corrida e a programação em algumas partes deu certo e em outras não, por pouco não conseguimos a medalha.”

Imagem-Iagor-Libiano-aluno-do-curso-de-robótica-ete-ferreira-vianaIagor Libiano – 3°ano – Eletrotécnica
“Eu sempre fui interessado em tecnologia, ciências aí quando soube que abriram inscrições para o curso, eu fiz. A robótica me ajudou em muitos pontos, por exemplo, eletrônica digital eu aprendi aqui antes e agora tenho essa matéria no 3° ano e  isso me facilita. O César também é professor de física e ele sempre ajuda quando precisa. Nós aprendemos muita coisa com todos os projetos,principalmente a trabalhar em equipe. Nas competições conhecemos pessoas diferentes e aprendemos e ensinamos muita coisa.”

Imagem-Polick-Chen-aluno-do-curso-de-robótica-ete-ferreira-vianaPolick Chen – 3°ano – Mecânica
“Eu soube do curso por um amigo que estudava aqui há muito tempo e me explicou como seria. Eu gostava dessa área de robótica e tinha interesse de saber mais sobre robôs. Então fui à palestra, fiquei motivado e decidi fazer o processo seletivo. Participar da robótica me deu uma noção melhor sobre como estudar, como melhorar nas provas. O professor também sempre me ajuda com as atividades de física.”

 

Letícia Santos

Letícia Santos

leticia.santos@folhadirigida.com.br

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