Por que a sala de aula invertida segue forte após dez anos

Por que a sala de aula invertida segue forte após dez anos

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Por que o conceito da sala de aula invertida segue forte após dez anos
O conceito de sala de aula invertida nasceu há dez anos

Em artigo publicado recentemente no site EdSurge*, o jornalista Stephen Noonoo, editor de K12 (designação usada nos Estados Unidos para as educações primária e secundária como um todo), avalia a trajetória de dez anos da sala de aula invertida.

Noonoo faz uma retrospectiva do tema desde o surgimento da metodologia de ensino, relembra as críticas e as defesas dos criadores do método e aponta uma tendência cada vez maior de valorização do mastery learning (ou “aprendizagem para o domínio”), que significa estudar uma matéria até dominá-la, não apenas visando uma avaliação ou prova. Confira:

Sala de aula invertida: dez anos de sucesso

Há dez anos, dois professores de química do Colorado lançaram um conceito ousado em um cenário K-12 onde poucos questionavam a fórmula antiga de aulas presenciais, lição de casa, avaliação, repetição.

Eram os primórdios do YouTube (então com dois anos de idade), e estava se tornando fácil e barato fazer e publicar vídeos. Então os dois professores – Jonathan Bergmann e Aaron Sams – propuseram mudar as aulas teóricas para vídeos aos quais os alunos assistiriam em casa. Aí eles pediriam aos alunos que viessem à escola preparados para resolver problemas e exercícios em sala. A prática tornou-se conhecida como “sala de aula invertida” – uma versão moderna, baseada em vídeo, de um modelo pioneiro executado por um grupo de professores de educação superior durante a década de 1990.

. Em evento no Brasil, Jonathan Bergmann explica a sala de aula invertida.

Alguns anos depois, o conceito explodiu, em parte pelo nome atrativo, juntamente com o rápido crescimento do acesso a internet nas residências e com o sucesso de um popular TED Talk de Sal Khan em torno do tema. Ou talvez tenha sido pelo fato de que qualquer um pode entender a essência da ideia de ensino invertido num piscar de olhos. “É um modelo simples”, diz Bergmann. “Os projetos simples funcionam bem e a simplicidade faz as coisas acontecerem.”

Seja qual tenha sido o motivo, o conceito de flipped classroom foi um sucesso com professores em todo mundo. Em 2008, ganhou sua própria conferência, a FlipCon. O jornal New York Times defendeu a metodologia através de um artigo chamado “Death Knell for the Lecture“, enquanto outros meios de comunicação convencionais também passaram a cobrir temas relacionados. Os críticos, previsivelmente, surgiram chamando a sala de aula invertida de nova modinha de vídeo online. Mas Bergmann, Sams e Khan a transformaram em um caminho real.

O que era menos certo, na época, era que o flipped learning continuaria forte uma década após as primeiras aulas de Química on-line irem ao ar e que geraria um movimento global, conquistando devotos em dezenas de países ao redor do mundo. Ou que empresas de EdTech como EDpuzzle, PlayPosit e Schoology ainda estariam ganhando dinheiro com isso muito tempo após o primeiro ciclo da novidade chegar e ir embora.

Claro que o movimento ainda tem seus críticos. A prática pode significar mais trabalho para alunos e professores, prejudica os estudantes que não têm um bom acesso à Internet em casa e facilita erros de professores, isolando ainda mais os alunos. “Um garoto que não faz sua lição de casa normalmente não vai assistir às palestras em casa”, escreveu o educador Chris Aviles em uma crítica contra o modelo.

Mas, notavelmente, um movimento de oposição coeso não se materializou, em parte porque a pesquisa sobre seu impacto na sala de aula geralmente foi positiva (ou pelo menos neutra). Mas talvez também porque, à medida que a o aprendizado invertido evoluiu, adotou uma definição muito mais aberta. Tornou-se difícil de definir uma vez que começou a se livrar do estigma de uma simples modinha de vídeo online.

“Quando você pergunta às pessoas o que é a sala de aula invertida, elas vão automaticamente para os vídeos”, diz Ryan Hull, um professor da escola secundária do Kansas que vem invertendo suas aulas de estudos sociais nos últimos seis anos. “Eu sei que fazer um vídeo provavelmente é a parte mais intimidante para a maioria das pessoas. Mas eu dedico a grande maioria do meu tempo agora a descobrir o que vou fazer em um período de aula no qual costumava conversar por 35 minutos.”

A promessa de mais tempo para a aprendizagem ativa é a chave da defesa da sala de aula invertida, dizem os fãs da metodologia. Igualmente importante, a abordagem oferece uma solução pronta para um problema universal: na era da informação, como você ensina os alunos a pensar por si mesmos quando tantas respostas estão a apenas uma pesquisa do Google de distância?

Sistema Operacional invertido

No início desta década, talvez não houvesse uma pessoa – nem mesmo Bergmann ou Sams – mais associada ao conceito de sala de aula invertida do que Sal Khan (educador americano bengali, fundador da Khan Academy, plataforma online de educação livre), devido em grande parte às mais de 140 milhões de visualizações que os vídeos da Academia Khan haviam acumulado até 2012. Mas essa associação, na verdade, foi pouco mais do que uma coincidência temporal. Ou seja, os vídeos de Khan começaram a se aproximar de uma massa crítica ao mesmo tempo em que flipped learning estava chegando ao mesmo ponto.

“Eu meio que cai dentro disso”, diz Khan, em uma entrevista ao site EdSurge. “No meio do meu TED Talk, eu digo ‘virou’, mas nem percebi que havia algo chamado de movimento de sala de aula invertida quando disse isso. Quase por coincidência, houve esse movimento e este meme – e isso virou um movimento poderoso.”

Logo Flipped Learning

Khan não faz nenhum segredo sobre o fato de ele e sua organização sem fins lucrativos se beneficiaram dessa associação. Mas ele afirma que a Academia Khan tem uma “relação dúbia” com o termo sala de aula invertida. “Eu sempre coloquei um asterisco (no termo). E sempre digo: ‘Este é apenas o começo. Não é só falar sobre inverter o processo e fazer a lição de casa em aula e a aula em casa. É fazer o que é mais apropriado no lugar apropriado e quando o aluno precisa disso”, diz ele.

Mas se Khan era o rosto do movimento, pelo menos para o mundo exterior, Jonathan Bergmann sempre foi seu coração. Quando o flipped learnig começou a virar um hit, ele deixou as salas de aula para viajar pelo mundo divulgando o “evangelho da inversão”. Ao longo do caminho, ajudou a fundar a Flipped Learning Network – sem fins lucrativos – e, mais recentemente, a Flipped Learning Global Initiative, uma organização que combina pesquisas com uma comunidade de especialistas em aprendizado invertido (e um novo programa de certificação).

Há um ano e meio, Bergmann encarregou seus pesquisadores de avaliar o movimento da sala de aula invertida, analisando estudos publicados e histórias coletadas de educadores ao longo dos anos. No final, os pesquisadores trouxeram algumas conclusões talvez não surpreendentes: o aprendizado invertido está em constante evolução, transformou o tempo de aula em tempo de aprendizagem ativo, alcançou um seguimento global e está criando novas oportunidades de trabalho.

Através de avaliações de pesquisas em sala de aula, como o projeto Tomorrow’s Speak Up, a Flipped Learning Global Initiative estima que cerca de 16% dos professores dos EUA estão atualmente invertendo seus ensinamentos e 35% gostariam de treinamento sobre o assunto; além disso, 46% dos diretores querem professores novos que saibam trabalhar com sala de aula invertida.

Mas o estudo também concluiu que o aprendizado invertido não é apenas mais uma estratégia de ensino, concorrendo com outros modelos – como o aprendizado baseado em projeto ou em domínio (mastery learnig) -, mas sim um tipo de “isca” para que os educadores se interessassem por filosofias de ensino mais amplas. “Estamos dizendo que precisamos de uma maneira simples de passar do aprendizado ativo ao passivo. E a maneira mais simples de fazer isso é através de aprendizado invertido”, diz Bergmann.

Uma das formas de pensar de Bergmann sobre esta estratégia mais ampla é cortesia de um de seus colegas de pesquisa, Robert Talbert, professor de matemática da Universidade Estadual Grand Valley, em Michigan. “Ele usou uma metáfora para descrever isso”, diz Bergmann. “Pense no ensino invertido como ‘o sistema operacional da educação’. Todas as outras estratégias de aprendizagem ativa – como aprendizagem baseada em projetos, pesquisa e aprendizagem de domínio – são os aplicativos. O Flipped Learning é uma estrutura para fazer tudo isso funcionar”.

Não é sobre vídeo – até que seja

Aaron Sams foi um dos co-fundadores originais do moderno movimento de aprendizado invertido e, assim como Bergmann, ele também viajou o mundo dando palestras e treinando professores. Recentemente, porém, deu uma pausa para fazer um doutorado na instrução STEM, e começou a explorar questões mais gerais sobre o que caracteriza um bom ensino (em oposição a um bom ensino invertido).

“Eu costumava dizer que o ensino invertido não é sobre vídeo, é sobre o que você faz com o tempo de sua sala de aula”, explica Sams. “Mas quanto mais eu penso sobre isso, vejo que um bom ensino tem justamente a ver com o que você faz com o tempo da sala de aula.” A sala de aula invertida, diz ele, é uma ferramenta para ajudar a empurrar a sala de aula para uma aprendizagem ativa e um melhor uso do tempo presencial. “Então, eu provavelmente vou voltar atrás em relação ao que eu disse há alguns anos – que não é sobre o vídeo – e, digamos, acho que é mais ou menos isso, sim”.

sala de aula invertida ou flipped learning: 10 anos de sucesso
Por que o conceito da sala de aula invertida segue forte após dez anos

Khan sugere que, enquanto a instrução baseada em vídeo é inferior à interação humana, ela ainda tem valor como parte do que ele chama de “microexplicação”, pelo qual os estudantes podem recorrer às aulas de professores (ou, no caso, vídeos da Academia Khan) para reforçar os conceitos durante o processo de aprendizagem ativa no momento exato que eles estão prontos para aprendê-los.

As conferências ainda existem em um modelo invertido, mas a forma como os professores usam é muito diferente. Uma vez que as aulas teóricas são transformadas em uma série de vídeos modulares, os alunos podem consumi-las conforme necessário. Ryan Hull, o professor do ensino médio no Kansas, pratica o que ele chama de “in-flip”, onde os alunos assistem a vídeos em sala de aula. Ele explica: “Assim, quando tiverem dúvidas, eu estou aqui”.

Cara Johnson, uma ex-professora de anatomia do ensino médio em Allen, Texas, conheceu alunos cujos professores não adotaram um modelo invertido que acabavam se aproximando de seus colegas em cursos invertidos para terem acesso aos vídeos. “Os alunos percebem o poder de ter essa instrução em tempo real.”

Os mestres da virada

Os professores que têm invertido suas salas de aula nos últimos anos tendem a seguir uma trajetória similar. Eles ficam nervosos ou céticos no início, invertendo turna por turma enquanto planejam atividades suficientes para preencher o horário das aulas. E no início muitos estudantes resistem. Pesquisas mostram que os alunos às vezes têm dificuldade em usar vídeo passivo de forma eficaz, e muitas vezes precisam de ajuda para serem mais produtivos durante o tempo de aprendizagem ativa. “Para os alunos que já dominavam o ‘jogo’ do ensino médio, era como se eu estivessem mudando as regras, e isso foi frustrante para eles”, contou Johnson sobre os primeiros dias de inversão de sua aula de anatomia.

“Quando mudei o método para o mastery learning , eu também aboli as datas de prazo”, explica Johnson. “Eu disse: ‘Olha, aqui está o que eu espero que você aprenda, e aqui está tudo o que você precisa para aprender. Vá lá aprender, mas eu não vou lhes dizer para aprender isso até a data tal. “Todos os estudantes respiraram aliviados.”

A aprendizagem baseada no domínio (mastery learning) ou na competência é um daqueles termos pedagógicos difusos que estão abertos à interpretação. Khan chama isso de “termo padrão” que os educadores usam de maneiras diferentes. Para ele, o mastery learning consiste simplesmente em não pressionar os filhos a ir em frente quando eles ainda estão empacados em alguma questão. “Significa apenas que você tem várias tentativas para acabar com as lacunas”.

Parte do seu apelo aos educadores invertidos é que sua abordagem de mastery learning tenha o “selo de aprovação Bergmann-Sams”. Antes que Bergmann começasse a pensar na sala de aula invertida como “a cola que mantém tudo em conjunto”, ele e Sams promoviam a ideia de que, dentro de uma sala de aula invertida, unidades inteiras poderiam ser dadas a estudantes ao mesmo tempo para que eles aprendessem no seu próprio ritmo. E, ainda, dentro de uma sala de aula invertida com foco em mastery learning haveria tempo de sobra para novos projetos, seminários e muitas “genius hours” (movimento que permite aos alunos seguir suas próprias paixões e explorar a criatividade na sala de aula).

“Aplicar o conceito de mastery learnig na sala de aula invertida faz todo sentido”, diz Hull, que assim como Johnson introduziu o conceito para seus alunos do ensino médio. “Para seus alunos seguirem em frente (em uma disciplina), eles devem mostrar que dominaram pelo menos três quartos do material apresentado. Nesse ponto, se eles quiserem melhores notas, sempre podem voltar ao material passado com o qual tiveram dificuldade e tentar novamente.”

Na verdade, Hull diz que está se baseando no trabalho de pesquisadores como Benjamin Bloom, que defendeu a “aprendizagem para o domínio” há mais de quarenta anos. “A educação corre em círculos”, diz Hull. “O mastery learnig funcionava na época e agora estamos voltando para isso. E ainda está funcionando”.

Johnson, Hull e Sigrún Svafa, uma professora dinamarquesa (também defensora da metodologia), têm dado aulas que parecem claramente montessorianas. Hull se orgulha de que em qualquer dia, os alunos da sua turma podem estar trabalhando em cinco ou seis coisas diferentes. Sigrún Svafa – que ensina adultos que retornam ao ensino médio -, oferece aos alunos uma enorme flexibilidade para trabalhar nas áreas em que eles se sentem mais fracos durante o horário da aula. E Johnson está ajudando com um projeto na sala de aula de um professor de física na qual os estudantes estão investido todo seu tempo em descobrir como criar uma enorme pintura de Mondrian a partir de um pequeno modelo.

Mas os mesmos três professores também ocupam tempo de aula dando pequenas palestras sobre temas que amam, ensinando os alunos a serem aprendizes melhores e mais independentes e promovendo conversas de sobre notícias recentes. O segredo para fazer tudo funcionar, segundo eles, não tem nada a ver com a eliminação da instrução direta em classe. Em vez disso, está na verdadeira flexibilidade que a sala de aula proporciona.

“Eu digo às pessoas que não é proibido fazer uma boa aula teórica”, explica Sigrún Svafa. “Isso é realmente agradável às vezes – se for para falar sobre algo que você ama. Mas se você gravar todas as coisas chatas, sobra muito mais tempo para todas as coisas incríveis”.

*Leia o artigo original aqui.

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